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TODOS OS TEXTOS SÃO DE AUTORIA DE KLAAS KLEBER

LIBERDADE, HUMOR E BEM-ESTAR:
O “CLOWNEAR” COMO VIVÊNCIA SUBJETIVA E
DINAMIZADOR DA EXPERIÊNCIA DE ÓCIO



Vivemos hoje uma cultura fundamentada na aceleração social”, na escassez de tempo, num tempo reduzido a instantes, subdividido, comprimido, em decorrência da multiplicidade de [obrig]ações que o homem pós-moderno assume no seu dia a dia, e cujos afazeres, muitas vezes, chegam a ultrapassar a sua capacidade física e mental. Vivemos atrelados a uma cadeia de regras e a um tempo/cronológico que nos é imposto e que nos obriga a relativisar o nosso tempo-motor-ritmo-pessoal de acordo com os horários instituicionais, a uma cultura onde o fator tempo se tornou o regulador predominante na vida das pessoas, que passam o seu tempo na corrida pelo “tempo perdido” ou para “ganhar tempo”. Segundo Martins e Ponte (2010, p.78): “A contemporaneidade nos oferece realidades temporais nas quais os cronogramas sobrecarregados de demandas de todos os tipos levam à percepção de que estamos vivendo em função do tempo métrico (o do relógio).” O que se nota é que na sociedade pós-moderna a aceleração do tempo social e do tempo-ritmo-pessoal vem produzindo mudanças significativas na vida das pessoas e contribuindo na produção de seres humanos cada vez mais robotizados, fragmentados[1], angustiados, estressados, mal humorados e infelizes, gerando, com tudo isso, uma série de patologias como: a ansiedade, a depressão, o tédio, a taquicardia, a síndrome do pânico, etc. O homem da pós-modernidade precisa de um tempo paulatinamente humanizado, de um tempo-motor-ritmo-pessoal desacelerado, como também de um tempo de autonomia, de um tempo de consciência pessoal, de um tempo de reflexão e contemplação, de um tempo de “nada fazer”[2], ou seja, de um “tempo de ser/existir”.
Como levar o indivíduo a uma reflexão, valorização e experienciação de um outro modo de ser/existir? A descobrir e a desenvolver outras formas de comunicar/perceber/agir sobre a realidade? Que atividades podemos propor, enquanto possibilidades, e que propiciem a estes indivíduos vivenciar uma experiencia de ócio? Segundo Martins e Ponte, o ócio, que é tido como uma dimensão própria do ser humano “caracteriza-se como âmbito para o recriar-se e também refere-se àquelas vivências pessoalmente satisfatórias e transformadoras, oriundas do exercício da autonomia e do protagonismo (2010, p.78).”


Em termos subjetivos, a palavra ócio é sinônimo de ocupação desejada, apreciada e, é claro, resultado da escolha livre. É interessante ressaltar a atenção posta no significado atribuído por quem vivencia a experiência de ócio. O ócio integra a forma de ser de cada pessoa sendo expressão de sua identidade, sendo que a vivência de ócio não é dependente da atividade em si, nem do tempo, do nível econômico ou formação de quem a vivencia, mas sim está relacionada com o sentido atribuído por quem a vive, conectando-se com o mundo da emotividade (AQUINO e MARTINS, p. 492).


A experiência de ócio, que é uma experiência subjetiva, parte da identificação, da escolha, da abertura, da entrega, da apreciação e da percepção do sujeito que a realiza, como também do seu modo de ser, estar e sentir pessoal. Essa experiência humana deve estar estruturada na liberdade, na satisfação, no prazer, no desfrute, na saúde, no sentimento de felicidade e no bem-estar, que são estados responsáveis pela promoção do desenvolvimento psicofísico, social e espiritual do indivíduo.
            O artigo, ora proposto, não pretende dar respostas ou tirar conclusões definitivas acerca da temática, mas propor uma reflexão sobre o “clownear” como vivência subjetiva e dinamizador da experiência de ócio. Ou seja, pensar a arte do clown[3] como instrumental técnico/artístico, como mediador expressivo, como uma “bússola” que irá nortear o sujeito na busca do equilíbrio, da interação, do auto-reconhecimento, da escuta sensível de si e do outro, e a desenvolver o nível dos sentidos, da cinestesia, do simbólico, da imaginação, dos sentimentos, das sensações, das emoções e das memórias e energias humanas. A criar novos meios de percepção e a desenvolver uma lógica pessoal de se relacionar com o mundo e com a realidade.


“CLOWNEAR”: SINÔNINO DE LIBERDADE, HUMOR E BEM ESTAR


O termo “Clownear” pode ser interpretado neste contexto como um “verbo” que exprime ação e que pode ser traduzido por jogar (lúdico), brincar, divertir. Ações estas que nos levam a um estado de satisfação, contentamento, entusiasmo, humor, saúde, prazer, realização, relaxamento, liberdade, alegria e criação, tão preciosos e necessários ao nosso desenvolvimento humano e bem-estar físico e mental, além de fazer parte do processo de formação da nossa personalidade. “É a redescoberta do prazer de fazer as coisas, do prazer de brincar, do prazer de se permitir, do prazer de simplesmente ser. É um estado de afetividade, no sentido de ‘ser afetado’, tocado, vulnerável ao momento e às diferentes situações (PUCCETTI, Revista do LUME nº 1, 1998, p. 71).” O contato com a linguagem do clown , dentro de uma dinâmica de elaboração e treinamento, levará o indivíduo a se desnudar das máscaras sociais e a desenvolver inúmeras capacidades e competências humanas em todas as suas dimensões, sejam elas físicas, psicológicas, relacionais, emocionais e sociais.
No exercício do fazer teatral, enquanto professor de artes cênicas, tenho acolhido inúmeros alunos que recorrem à formação nem tanto pelo interesse no ofício do ator, mas na busca de uma “atividade alternativa”, que lhes possibilitasse experienciar algo de novo e que os ajudasse a se livrar daquelas tensões geradas pelo acúmulo de trabalho e pelo estresse do dia a dia. Uma atividade que lhes possibilitasse, também, desenvolver a comunicação e a livre expressão. A liberdade pessoal é a locomotiva que nos leva de encontro à espontaneidade, a experimentar e adquirir auto-consciência e auto-percepção. Numa cultura onde a aprovação e a  desaprovação se tornou um regulador predominante das nossas ações, nossa liberdade pessoal foi dissipada, cabendo ao sujeito cultivar e garantir a preservação daquilo que lhe é essencial para uma vida saudável e feliz: a livre expressão. Por meio dos exercícios práticos[4] os participantes são levados a uma reestruturação ao nível do equilíbrio psicofísico, trabalhando, principalmente, os aspectos relacionados à emotividade, à afetividade, à memória e aos sentidos.
Segundo Manuel Cuenca Cabeza[5], Kriekemans, ao se referir à vivência lúdica[6] do ócio humanista, salienta que o contato com o universo lúdico é algo essencial para a realização humana.


en el juego verdadero nos acercamos al mundo de un modo distinto a como lo hacemos en nuestra vida habitual. En él se atribuye al mundo una significación distinta de su realidad. Ocurre como si nos pusiéramos de acuerdo con el mundo para darle otra significación, principalmente una significación de fantasía (KRIEKEMANS apud CABEZA, pp. 65-66).


O contato com o universo lúdico do clown deve possibilitar ao indivíduo experimentar um outro modo de ser/existir  e de interagir com o mundo, a buscar novas formas de comunicar/perceber/agir sobre a realidade, pois o exercício do clown exige do sujeito uma outra percepção de mundo e um novo olhar diante dos acontecimentos. O contato com o clown possibilita ao indivíduo vivenciar aspectos do ridículo e estúpidos do seu ser, aquilo que está oculto, aquilo que não é revelado ou exposto na sua vida cotidiana, como também uma primeira vivência da utilização cômica do corpo e a elaboração de uma expressão capaz de “humorizar” o mundo trágico e absurdo em que o clown vive,  onde errar é mais que humano e onde o erro pode representar algo de bom.
O clown não pode ser pensado como uma caricatura separada daquele que o vivencia. Segundo Luís Otávio Burnier (2001, p. 209): “O clown não representa, ele é. Não se trata de um personagem, ou seja, uma entidade externa a nós, mas da ampliação e dilatação dos aspectos ingênuos, puros e humanos, portanto ‘estúpidos’, do nosso próprio ser.”
Mas do que consiste esse processo? O treinamento e elaboração do clown começa no corpo do aprendiz, pois o raciocínio desse cômico é inteiramente corpóreo, ou seja, o clown não só sente com o corpo, mas também  pensa e dialoga através dele. “Suas palavras estão em seu corpo, em sua dinâmica de ritmo, em sua musculatura, bem determinadas, claras, conhecidas (BURNIER apud SACCHET, 2009, p. 113).” Num treinamento de clown o sujeito desenvolve técnicas que proporcionam um estado de interação e comunicação com o ambiente, com o meio, o fora, o entorno, o mundo. “A corporeidade do clown precisa estar preenchida (ou recheada) pelo estado orgânico de relacionamento e pela relação real com o mundo à sua volta (FERRACINI, 2003, p. 220).” Segundo Maria Angela Machado,


Um dos modos possíveis de se explicar tal constituição implica a possibilidade de compreender que a característica cômica do clown encontra-se num estado particular de comunicação e interação. O clown e o ambiente em que ele está dispõem-se mutuamente a um jogo de receber, trocar e devolver estímulos. Receber, trocar e devolver comicamente os estímulos do ambiente e do clown (MACHADO, 2005, p. 12-13).


As ações e reações do clown são todas corporificadas. Sua afetividade, sua emoção, seu pensamento e toda a sua energia extravazam pelo corpo e pelos “poros”. É o modo de ser, estar e pensar do clown que determina todas as suas ações e reações. Não se trata de um pensar puramente racional, mas de um pensar corpóreo, muscular, físico. A logica do clown pode ser caracterizada por esse modo de pensar corpóreo (afetivo e emotivo) e pelo seuestado corporal ou consciência corporal”, que pode ser traduzido como sendo um conjunto de manifestações do seu corpo ajustadas com o meio, criando assim uma relação intrínseca, uma unidade ou totalidade onde não há divisão ou separação, a compreensão e significação do entorno, da realidade, do que está sendo percebido por meio da sensibilidade, pelo campo do sentir.
O guia interior que substancializa o trabalho desse cômico é o que podemos chamar de estado de clown. E o que seria o estado de clown? Encontrar uma definição única seria uma tarefa bastante complexa. Segundo Felisberto Sabino da Costa: “O estado é um constante fluir que envolve sentimento, emoção, pensamento e articula-se com a ação (2005, p. 45).” Já Ricardo Puccetti se refere a esse “estado” como sendo “um estado de afetividade, de vulneralidade, é levar ao extremo a conexão consigo mesmo, é o ‘saber se ouvir’. É tão importante quanto o saber estabelecer a relação com o fora, com o elemento externo: o parceiro, os objetos de cena, as pessoas do público (Revista do LUME nº 7, 2009, p. 123).” E ainda:


O estado de clown seria o despir-se de seus próprios estereótipos na maneira como o ator age e reage às coisas que acontecem a ele, buscando uma vulnerabilidade que revela a pessoa do ator livre de suas armaduras. É a redescoberta do prazer de fazer as coisas, do prazer de brincar, do prazer de se permitir, do prazer de simplesmente ser. É um estado de afetividade, no sentido de “ser afetado”, tocado, vulnerável ao momento e às diferentes situações (PUCCETTI, Revista do LUME nº 1, 1998, p. 71).


O termo “estado” pode adquirir vários outros sentidos e pode reportar às inúmeras experiências vividas pelo indivíduo. Não existe uma fórmula que possibilite alcançar e manter um determinado “estado”. Uma das estratégias usadas pelo ator e pesquisador Ricardo Puccetti, para levar o sujeito a encontrar o seu “estado de clown” é através da situação do picadeiro. Segundo ele: “O picadeiro coloca o aprendiz em situação de desconforto, o que leva a um desmoronamento de suas defesas naturais, aqueles estereótipos ou fórmulas já prontas, às quais sempre nos apegamos nos momentos de aperto (PUCCETTI, Revista LUME nº 7, 2009, p. 123).” Na “pele do clown” e no exercício do picadeiro o sujeito é levado a experimentar um outro “modo de estar” e de se relacionar com o mundo, a desenvolver sua potencialidade expressiva e perceptiva, sua capacidade de pergunta e resposta, suas habilidades de jogo e improvisação, sua capacidade de escuta, como também da observação, da crítica e da cooperação, a auto-gestão emocional, a auto-percepção, o auto-reconhecimento, a auto-confiança e a autonomia, a espontaneidade, a liberdade, a criatividade e a imaginação, além da comunicação, da observação, do raciocínio, e que refletem, por sua vez, no seu comportamento, que é caracterizado pela ação/natural e pela ação/reação psicofísica em interação com o outro e com o mundo. A máscara do clown (o nariz vermelho) é utilizada aqui como um mecanismo/estímulo para auxiliar o sujeito na criação e conservação daquilo que muitos pesquisadores denominam de “estado do clown”, como também na composição de uma lógica própria de ação/reação, que surge do confronto entre o universo interior do sujeito e os estímulos vindos de fora. Ela também mobiliza/cria, no sujeito, uma liberdade voltada para o prazer de brincar, zombar, caçoar e rir, exercitando o seu estado de humor. Esse nariz vermelho do clown é “a menor máscara do mundo, a que  menos esconde e mais revela (BURNIER, 2001, p. 218)”, e enquanto dispositivo simbólico, concede ao indivíduo a liberdade e a presença no seu estado mais puro.
No universo do clown, como em todas as outras linguagens artísticas, o mundo adquire outros significados, possibilitando ao indivíduo assumir uma condição especial de vida, fronteiriça, entre a realidade e a fantasia, onde ele pode assumir outros papéis e assumir a si próprio, “un mundo distinto, en el cual podemos volver a ser nosotros mismos y poder conseguir fuerzas para poder enfrentarnos a las exigencias del mundo cultural contemporáneo (KRIEKEMANS apud CABEZA, p. 66).” A vivencia lúdica do ócio, além de nos devolver a natureza humana, instaura o humor e o sentimento de bem-estar no nosso cotidiano. Como bem referiu Kriekemans (apud CABEZA, p. 66), “la salvación de la persona moderna pasa por la recuperación del niño que hay en cada uno de nosotros.” 

BIBLIOGRAFIA:

BURNIER, Luís Otávio. Arte de Ator – Da Técnica à Representação. Trad. de Luís Otávio Burnier, Carlos Roberto Simioni, Ricardo Puccetti, Hiroshi Nomura, Márcia Strazzacappa, Waleska Silverberg. Campinas: Editora da Unicamp, 2001;
FERRACINI, Renato. A arte de não interpretar como poesia corpórea do ator. Campinas: Ed. da Unicamp, 2003;
KLEBER, Klaas. Corporeidade e Fisicidade: O treinamento do clown enquanto instrumental técnico e artístico na formação do ator. Lisboa: Chiado editora, 1ª ed, 2012;
MACHADO, Maria Angela de Ambrosis Pinheiro. Uma nova mídia em cena: corpo, comunicação e clown. Dissertação Doutorado. PUC. São Paulo, 2005;
SACCHET, Patricia de Oliveira Freitas. Da discussão “clown ou palhaço” às permeabilidades de clownear-palhaçar. Dissertação de Mestrado. UFRS. Porto Alegre, 2009.

PERIÓDICOS:

AQUINO, Cássio A. Braz e MARTINS, José Clerton de Oliveira. Ócio, lazer e tempo livre na sociedade do consumo e do trabalho. Fortaleza: Revista mal-estar e subjetividade, vol VII, nº 2, 2007;
CABEZA, Manuel Cuenca. Ócio Humanista. Documentos de Estudios de Ocio, nº 16. Instituto de Estudios de Ocio, Universidad de Deusto;
COSTA, Felisberto Sabino da. A máscara e a formação do ator. Revista Moín Moín: Revista de estudos sobre teatro de formas animadas – O ator no teatro de formas animadas – UDESC e Sociedade Cultural Artística de Jaraguá do Sul. Florianópolis, ano 1, nº 1, 2005;
MARTINS, José Clerton de Oliveira e PONTE, Felipe Teófilo. A experiência de ócio na sociedade de tempos escassos. Fortaleza: Revista Humanidades, v. 25, nª 1, p. 78-87, 2010;
PUCCETTI, Ricardo. O riso em três tempos. Revista do LUME. Número 01. Campinas: Ed. Unicamp, 1998;
PUCCETTI, Ricardo. No caminho do palhaço. Revista do LUME. Número 07. Campinas: Ed. Unicamp, 2009.






[1] O homem dividiu-se em inúmeras partes e cada uma delas tenta dar conta das diversas atividades que se propôs executar (MARTINS e PONTE, 2010, p.86).
[2] Dentro de uma concepção de ócio os autores Aquino e Martins nos aponta o tempo de “nada fazer” como sendo um tempo verdadeiramente livre. “Neste tempo, o sujeito experimenta a sensação de vivenciá-lo sem nenhum tipo de pressão ou compromisso com produtividade. É um tempo de compromisso consigo mesmo, pleno de autocondicionamento (AQUINO e MARTINS, 2007, p.498).”
Segundo Aquino e Martins, para Munné, na sua concepção sobre a tipologia do tempo social, o tempo livre “se refere às ações humanas, realizadas sem que ocorra uma necessidade externa. Neste caso, o sujeito atua com percepção de fazer uso desse tempo com total liberdade e de maneira criativa, dependendo de sua consciência de valor sobre seu tempo (AQUINO e MARTINS, 2007, p.482).” 
[3] Evidencio o termo clown por se tratar de uma nomenclatura mais comumente utilizada no meio teatral, ao contrário de palhaço, cujo termo está mais ligado ao circo. Todavia, ambos os termos possuem o mesmo significado.  Segundo Luis Otávio Burnier: “Na verdade palhaço e clown são termos distintos para se designar a mesma coisa (BURNIER, 2001, p. 205).
[4] Exercícios físicos de diversas ordens; clássicos de clown; jogos e improvisação (picadeiro); etc.
[5] Ocio Humanista. Documentos de Estudios de Ocio, núm. 16. Instituto de Estudios de Ocio. Universidad de Deusto.
[6] Kriekemans aponta a “vivência lúdica”, com também a “liberação”, o “autotelismo” e a “formação”, como as quatro características do ócio humanista.




CORPOREIDADE E FISICIDADE: O TREINAMENTO DO
CLOWN ENQUANTO INSTRUMENTAL TÉCNICO E ARTÍSTICO
NA FORMAÇÃO DO ATOR




Configurou-se no estudo dos procedimentos metodológicos de treinamento e elaboração do clown: uma reflexão sobre o conceito de clown e a exposição de processos de criação e formação na prática do clown, enfocando princípios técnicos e didáticos que possam servir de orientação para o clown/aprendiz em sua formação, a partir do contato com a literatura.

É possível ensinar a um ator o ofício do clown? Que princípios esse ator precisa dominar para dar início ao processo de criação e elaboração do seu clown? Do que consiste esse processo? Muitos atores ainda carregam dúvidas sobre a arte do clown, concluíram sua formação técnica e/ou acadêmica sem um mínimo contato com as teorias e práticas clownescas, ou seja, não vivenciaram um treinamento, não passaram por um processo iniciático de elaboração e criação do clown, e não tiveram contato com práticas circenses. Despreparados e sem orientação, apostam no trabalho de “representação” de um clown, constroem “personagens clownescos”, e acabam por se tornarem pouco eficazes artisticamente, apelando para fórmulas já prontas, pré-fabricadas (piadas, estórias, personagens, gestual estereotipado). “Num primeiro olhar, poder-se-ia pensar que o clown é um personagem, e, como tal, criado por um ator que o desempenha como caricatura separada de si, submetida ao crivo e coordenação deste sujeito pensante que está por trás das ações que desenvolve (DORNELES, 2003, p. 17)[1].” Segundo Luís Otávio Burnier[2] (2001, p. 209): “O clown não representa, ele é. Não se trata de um personagem, ou seja, uma entidade externa a nós, mas da ampliação e dilatação dos aspectos ingênuos, puros e humanos, portanto ‘estúpidos’, do nosso próprio ser.”

Muitos atores, recém formados, desejosos de aprender o ofício do clown, se matriculam em Oficinas, Workshops ou Cursos de formação. Todavia, esses contatos “provisórios” com a linguagem do clown, oferecidos como “cursos intensivos”, nem sempre garantem o crescimento pessoal, acima e além do nível profissional, ou seja, o tempo de aprendizado assegura a qualidade de um treinamento. Ainda assim, esse primeiro contato com a linguagem do clown pode representar o “ponta-pé inicial”, o “despertar de uma paixão” e, consequentemente, um importante acréscimo na construção desse ator. No entanto, o autoaperfeiçoamento, num treinamento específico e contínuo, seria a estratégia ideal para o entendimento do clown.

Pretendemos que este material venha servir de “bússola” para nortear o ator aprendiz na busca do seu clown, e servir também de estímulo criativo e criador, para que o mesmo, a partir do contato com este estudo, se sinta em condições de se auto-gerir e dar continuidade às suas pesquisas, adaptando o que pode ser útil aos seus trabalhos pessoais.

Não temos a pretenção de sugerir um “manual de trabalho” e sim, propor uma reflexão sobre o conceito de clown e expor procedimentos de criação e formação na prática do clown, enfocando princípios técnicos e didáticos que sirvam de orientação e de “trampolim” para um clown/aprendiz.
Esta dissertação não pretende esgotar as reflexões acerca da temática, tampouco dar respostas ou tirar conclusões definitivas. O estudo, ora proposto, deve servir como um “primeiro olhar” para aqueles que desejarem fazer uma reflexão sobre a linguagem do clown.

ALICERCES PARA UM TREINAMENTO DE CLOWN


  Várias pedagogias sobre o trabalho do ator sugerem a desconstrução do “corpo cotidiano”, entendido como um “corpo automatizado” (mecânico, sem vontade própria), e a reedificação de um “corpo em vida”, um “corpo dilatado”, como estratégia fundamental para se atingir uma certa eficácia comunicativa.

A autodisciplina, o vigor, o exercício, dentro de um treinamento especifico e contínuo, possibilitaria ao ator superar o dualismo e a mecanicidade presentes na vida cotidiana, distanciando-o do natural, do espontâneo, no sentido de não representar a si mesmo, de não parecer a si mesmo, libertando-o dos automatismos e reflexos com os quais ele está acostumado. Segundo Eugênio Barba[1]:



Nosso uso social do corpo é necessariamente um produto de uma cultura: o corpo foi aculturado e colonizado. Ele conhece somente os usos e as perspectivas para os quais foi educado. A fim de encontrar outros ele deve distanciar-se de seus modelos. Deve inevitavelmente ser dirigido para uma nova forma de “cultura” e passar por uma nova “colonização”. É este o caminho que faz com que os atores descubram sua própria vida, sua própria independência e sua própria eloquência física (BARBA e SAVARESE, 1995, p. 245).



Esse treinamento pode ser entendido tanto como a preparação física do ator como o seu crescimento pessoal, acima e além do nível profissional. “O treinamento é um encontro com a realidade que se escolheu: qualquer coisa que se faça, faça-a com todo seu ser. Por isso falamos de um treinamento e não de uma escola ou de um período de aprendizagem (BARBA apud FERRACINI, 2003, p. 128).” Trata-se de um treinamento sistematizado, buscando sempre “maneiras precisas e objetivas de desenhar, modelar, articular, a apreensão no corpo de certos princípios, leis, de uso do corpo cênico (BURNIER apud FERRACINI, 2003, p. 128).”


            Para Ferracini (2003), o trabalho físico do ator dá início antes do treinamento técnico propriamente dito. O ator deve partir do aquecimento corporal, do aquecimento de suas energias e organicidade[2], essenciais para um “corpo-em-trabalho”, pois o ator não é somente corpo, mas um “corpo-em-vida”. Esse aquecimento “não é só físico, mas ‘físico e mental’. Embora aquecer o corpo seja importante, para um ator, isto não basta. Ele precisa aquecer-se, isto inclui a sua pessoa, ou seja, seu universo interior (BURNIER apud FERRACINI, 2003, p. 137).”


            O treinamento energético viria em seguida, com o propósito de desmanchar todos os vícios corporais do ator, e de possibilitar a descoberta de energias potenciais. Burnier acreditava que “a exaustão física poderia ser uma porta de entrada para essas energias potenciais, pois, em estado de limite de exaustão, as defesas psíquicas tornam-se mais maleáveis (BURNIER apud FERRACINI, 2003, p. 138).”



Trata-se de um treinamento físico intenso e ininterrúpto, e extremamente dinâmico, que visa trabalhar com energias potenciais do ator. “Quando o ator atinge o estado de esgotamento, ele conseguiu, por assim dizer, ‘limpar’ seu corpo de uma série de energias ‘parasitas’, e se vê no ponto de encontrar um novo fluxo energético mais ‘fresco’ e mais ‘orgânico’ que o precedente”. (…) Ao confrontar e ultrapassar os limites de seu esgotamento físico, provoca-se um “expurgo” de suas energias primeiras, físicas, psíquicas e intelectuais, ocasionando o seu encontro com novas fontes de energias, mais profundas e orgânicas. “Uma vez ultrapassada esta fase (do esgotamento físico), ele (o ator) estará em condições de reencontrar um novo fluxo energético, uma organicidade rítmica própria a seu corpo e à sua pessoa, diminuindo o lápso de tempo entre o impulso e ação. Trata-se, portanto, de deixar os impulsos ‘tomarem corpo’. Se eles existem em seu interior, devem agora, ser dinamizados, a fim de assumirem uma forma que modele o corpo e seus movimentos para estabelecer um novo tipo de comunicação (…)” (BURNIER apud FERRACINI, 2003, p. 138).



            É suposto que um treinamento energético aconteça em grupo, visto que a troca e a comunicação corpórea e enérgica entre os participantes é de fundamental importância para o bom andamento do processo. Ainda que se trate de um treinamento contínuo e intenso, nos momentos de “pausa” ou “parada” o ator deve continuar o energético internamente, como se o corpo estivesse em movimento. Se é proposto uma inversão de ritmo durante o processo (rápido para lento) o ator pode liberar, controladamente, descargas dessa energia. Através desta dinâmica de trabalho o ator irá perceber, corporalmente, uma pressão interna maior que a movimentação externa. Mediante Ferracini, “esse é o primeiro contato do ator com a variação da fisicidade, na qual ele omite os elementos externos da ação, guardando sua sensação e sua corporeidade (2003, p. 139).” Por meio de um treinamento energético o ator é levado a estabelecer um primeiro contato, uma conexão, com a sua “segunda natureza”, com suas energias dilatadas e extracotidianas. O treinamento técnico viria em seguida.



Depois de passar pelo treinamento energético, o ator consegue vislumbrar a possibilidade de entrar em contato com sua organicidade e suas energias potenciais. Em um segundo momento, ele deve começar a adestrar seu corpo para que ele possa canalizar esses elementos, por meio de uma técnica objetiva que o possibilite colocar-se no espaço e no tempo de uma maneira extracotidiana e, portanto, diferente do cotidiano comum (FERRACINI, 2003, p. 144).


       Tendo em vista que um treinamento de clown começa no corpo do ator, buscaremos, a partir daqui, uma aproximação com os “alicerces” da Antropologia Teatral[3], afim de evidenciar princípios técnicos e artísticos que possam ser significativos para a performance do clown e para a percepção de si mesmo. Segundo Kasper:



Para fazer um clown é preciso fazer um corpo. Não se trata de um corpo dado, mas um corpo produzido nas diversas experimentações que constituem o processo de construção de um clown. Produzido trabalhando justamente as vulnerabilidades daquele ator e procurando ativar, potencializar a multiplicidade de seres que o habitam, experimentando ao mesmo tempo os mais variados processos (KASPER, 2009, p. 206).



No seu Dicionário de Antropologia Teatral, Eugênio Barba (1995) busca fundamentar procedimentos que visam a construção de um “corpo extracotidiano”: um corpo cênico, teatralmente decidido, vivo, crível, capaz de manter a atenção do espectador mesmo antes de transmitir qualquer mensagem. Segundo Barba, cabe ao ator buscar um novo condicionamento, através da utilização extracotidiana do corpo e da mente. A utilização extracotidiana do corpo-mente é aquilo que Barba chama de técnica. Esta “técnica” deve possibilitar ao ator encontrar o seu estado de “presença”, estado este, fundamental na cena e no processo de criação. Renato Ferracini comenta que:



(…) a primeira tarefa que um ator deve enfrentar, quando começa essa busca, é um desnudar-se, dinamizando suas energias potenciais e procurando encontrar e abrir as “portas” que o levem a um contato orgânico com sua pessoa. Ao mesmo tempo, deve “domar” essas energias em “trilhos” técnicos corpóreos, por meio de trabalhos e exercícios que possibilitem uma relação extracotidiana, portanto dilatada, com o espaço e com seu próprio corpo, in-corporando elementos objetivos que permitam uma nova relação psicofísica (FERRACINI, 2003, p. 133).



            Não tenho a pretensão, com este estudo, de oferecer ao ator uma técnica pronta, mas indicar princípios que, segundo Eugênio Barba, regem a vida extracotidiana. Que os princípios apontados neste estudo servissem de “alicerce” para o ator  num treinamento de clown. Como diz Ferracini: “É uma nova aprendizagem, na qual o ator deve reeducar seu corpo para que ele se transforme em um corpo cênico, potencialmente artístico, a fim de comunicar ao público, de maneira organizada e otimizada, toda sua organicidade e sua vida (2003, p. 144).”
            Os princípios a que me refiro, e cujos fundamentos podem corroborar o trabalho técnico-corpóreo do ator num processo de treinamento de clown, podem ser combinados em três linhas de ação: a alteração do equilíbrio cotidiano à procura de equilíbrio precário ou de luxo; a dinâmica das oposições; e a energia do ator.
            Segundo Barba (1995), as técnicas extracotidianas objetivam a dilatação corpórea do ator, um corpo-em-vida, capaz de fazer crescer não só a presença física e orgânica do ator mas também a percepção do espectador. Essa dilatação pode ser explicada como uma alteração do equilibrio do ator, além de uma dinâmica corpórea de forças que se contrapoem, de oposições. Renato Ferracini comenta que:



No Lume, além desses pontos levantados, acreditamos que a dilatação corpórea esteja intimamente relacionada com a organicidade e manipulação de energias potenciais e pessoais do ator em relação às ações ou sequências de ações; e também na possibilidade de o ator encontrar caminhos corpóreo-musculares para que a ação possa estar interligada com sua pessoa, dentro de uma totalidade psicofísica (FERRACINI, 2003, pp. 146-147).



            Em certos trabalhos percebe-se nos atores uma energia elementar, uma força, capaz de atrair e seduzir o espectador, sem mediação. Podemos chamar esta força de “presença cênica”. Barba diz que: “Não se trata de algo que está, que se encontra , à nossa frente. É contínua mutação, crescimento que acontece diante de nossos olhos. É um corpo em vida (1995, p. 54).”  Um corpo dilatado é um corpo vivo, animado, quente, mas não do ponto de vista emoçional ou sentimental, estas são apenas uma consequência, tanto para o ator quanto para o público. Um corpo dilatado é um corpo vulcânico, cujos átomos foram excitados, produzindo mais energia, separam-se e atraem-se mais, se opoem com mais força, num espaço amplo ou reduzido.

Equilíbrio precário:

            Barba acredita que a vida do ator baseia-se, na realidade, em uma alteração do equilíbrio. Este princípio se encontra em todas as formas codificadas de representação: uma deformação da técnica cotidiana de caminhar, de deslocar-se no espaço, de manter o corpo imóvel. A finalidade é um equilíbrio permanentemente instável. Refutando o equilíbrio natural o ator intervém no espaço com um equilíbrio de luxo. Este equilíbrio de luxo é complexo, aparentemente supérfluo e com alto custo de energia. “Enquanto o comportamento cotidiano é baseado em funcionalidade, em economia de forças, na relação entre a energia usada e o resultado obtido, no comportamento extracotidiano do ator cada ação, não importa quão pequena, é baseada no desperdício, no excesso[4] (BARBA e SAVARESE, 1995, p. 55).”

            Poder-se-ia afirmar que este equilíbrio de luxo é a formalização, estilização, codificação. Daí podemos dizer também que este equilíbrio instável é a base das técnicas extracotidianas e por consequência o suporte do comportamento pré-expressivo[5]. Mesmo na imobilidade o ator é capaz de gerar no espectador a sensação de movimento, visto que esse equilíbrio de luxo, baseado nas tensões do corpo, não deixa de ser um equilíbrio em ação. Para Barba (1995, p. 246): “O ator pode estar extremamente concentrado, sem movimento, mas nesta imobilidade mantém todas as suas energias à mão; tal como um arco esticado, pronto para deixar a flecha voar.”



A característica mais comum dos atores e dançarinos de diferentes culturas e épocas é o abandono do equilíbrio cotidiano em favor de um equilíbrio “precário” ou extracotidiano. O equilíbrio extra-cotidiano exige um esforço físico maior, e é esse esforço extra que dilata as tensões do corpo, de tal maneira que o ator-bailarino parece estar vivo antes mesmo que ele comece a se expressar (BARBA e SAVARESE, 1995, p. 34).



            Em todas as formas de expressão codificadas, encontramos uma postura, onde o corpo foge, quase sempre, do seu eixo de equilíbrio natural (onde a relação entre o peso do corpo e sua base é confortável e quase sempre simétrica), proporcionando um equilíbrio precário ou equilbrio de luxo, completamente diferente da postura cotidiana. Podemos dizer que se trata de um equilíbrio cênico, extracotidiano, e que resulta numa cadeia de relações musculares e de tensões fisicas. Barba diz que: “Quanto mais complexos se tornam os nossos movimentos – quando damos passos mais largos do que de costume, ou mantemos a cabeça mais para frente ou para trás do que o usual – mais o nosso equilíbrio é ameaçado (1995, p. 35).” Uma cadeia inteira de tensões musculares é despertada para impedir que o corpo caia. Esse desequilíbrio em equilíbrio ou equilíbrio de luxo compromete toda a presença física do ator, criando uma série de tensões físico/orgânicas, e antecede a expressão propriamente dita, caracterizando aquilo que Barba chama de pré-expressividade. Este novo equilíbrio é adquirido pelo ator através do exercício e do treinamento.



O  estudo do equilíbrio torna possível compreender como um equilíbrio em ação gera uma espécie de drama elementar: a posição de tensões diferentes do corpo do ator é percebido cinestesicamente pelo espectador como um conflito entre forças elementares. Mas para ser capaz de se mover de um equilíbrio que é o resultado do esforço mínimo para uma visualização de forças contrárias – esta é a imagem do corpo de um ator que sabe como controlar o equilíbrio – o equilíbrio deve tornar-se dinâmico. Os músculos em ação devem substituir os ligamentos na manutenção da posição. O ator que não consegue dispor-se a este equilíbrio precário e dinâmico não tem vida na cena: conserva a estática cotidiana do homem, mas como ator parece morto (BARBA e SAVARESE, 1995, pp. 38-39).



            Partindo da análise de gravuras que retratam momentos de atuação dos personagens da commedia dell’arte, Barba percebe “uma deformação da posição cotidiana das pernas e uma redução da base de apoio do pé (1995, p. 34)”, concluindo que estes cômicos se encontravam sempre em equilíbrio precário. Outro exemplo a ser citado é o personagem Carlitos, clown de Charles Chaplin, cuja técnica fundamenta-se no dèséquilibre para dilatar a presença cênica. O personagem Carlitos mantem os tornozelos encontrados e os pés completamente voltados para fora, o que implica uma alteração da base de apoio, uma mudança de postura e consequentemente, uma alteração do equilíbrio.

A dinâmica das oposições:

            O  corpo do ator revela a sua vida ao espectador em uma miríade de tensões de forças contrapostas. É o princípio da oposição. Há uma força que impulsiona e uma outra força que, ao contrário, retém a ação. Este princípio é usado por todos os atores, ainda que algumas vezes de forma inconsciente, e se encontra presente em todos os gêneros, estilos e papéis das tradições pessoais e coletivas das artes cênicas. No seu estudo sobre o trabalho de atuação dos atores orientais, Barba comenta que: “O princípio da oposição é a base sobre a qual eles constroem e desenvolvem todas as suas ações (1995, p. 176).”


(…) para olhar uma pessoa sentada à sua direita, um ator ocidental usaria um movimento direto e linear do pescoço. Mas o ator chinês, assim como a maioria dos outros atores orientais, começaria como se quisesse olhar para a pessoa escolhida. De acordo com o princípio da oposição, se se deseja ir para a esquerda, começa-se indo para a direita, então pára-se subtamente e volta-se para a esquerda. Se se deseja agachar, primeiro se levanta na ponta dos pés e então se agacha (BARBA e SAVARESE, 1995, p. 176).



            Mais uma vez podemos citar como exemplo o personagem Carlitos, de Chaplin. Antes de caminhar para a frente Carlitos dá um passo para trás, criando assim uma oposição de forças, e consequentemente um contra-impulso para a ação desejada. No cotidiano, por exemplo, as forças que dão vida às ações de distender ou retrair um braço, uma perna, agem uma de cada vez e numa só direção. Nas técnicas extracotidianas as duas forças contrapostas agem simultaneamente.     
            O princípio da oposição é caracterizado por forças que se contrapoem, que por sua vez criam tensões físicas, tensões estas que produzem uma qualidade de energia. “Energia, disse o ator de kabuki Sawamura Sojuro, ‘poderia ser traduzido como koshi’. E de acordo com o ator de Nô, Hideo Kanze, ’Meu pai nunca disse ‘Use mais koshi’, mas ele me ensinou o que era tudo isso fazendo-me tentar caminhar enquanto me abraçava pelo quadril e me retinha’ (BARBA e SAVARESE, 1995, p. 12).”



Para vencer a resistência do braço de seu pai, ele foi forçado a inclinar seu tronco ligeiramente para frente, dobrou seus joelhos, comprimiu seus pés no chão e deslizou-os para frente antes de tomar um passo normal. O resultado foi o passo básico do Nô. A energia, como koshi, não é o resultado de uma alteração mecânica e simples do equilíbrio, mas é a consequencia da tensão entre forças opostas (BARBA e SAVARESE, 1995, p. 12).



Segundo Burnier:



O que diferencia um andar normal sem koshi de um com koshi é o movimento da bacia. Normalmente quando andamos, ela tem um movimento de ondulação sutil natural, como se flutuasse sobre as águas mansas do mar. É o movimento decorrente da variação do ponto de apoio sobre uma e outra perna. Quando trabalhamos o koshi, esta oscilação não existe, ou deve ser evitada, controlada. Isto dá uma força e uma presença para a bacia. Aliás, o termo koshi, em japonês, também significa a presença do ator (BURNIER apud FERRACINI, 2003, p. 162).[7]



            Barba (1995) diz que na escola de Nô da familia Kita os atores usam de um outro procedimento artesanal para se trabalhar as oposições. O ator deve imaginar que sobre ele existe um aro de ferro que o puxa para cima ao qual é necessário opor resistência para manter-se com os pés no chão. O termo japonês para designar estas forças contrapostas é hippari hai, que significa puxar para ti alguém que por sua vez te puxa. No corpo do ator o hippari hai encontra-se entre a parte superior e a inferior e entre a anterior e a posterior. Na Ópera de Pequim, o sistema codificado dos movimentos do ator rege-se no princípio de que cada ação deve ser iniciada na direção oposta a qual se dirige. Todas as formas de teatro tradicional balinês estão construídas estruturando uma série de oposições entre keras (forte, duro, vigoroso) e manis (delicado, suave, terno). Os termos keras e manis podem ser aplicados a vários movimentos, às posições das diferentes partes do corpo em uma dança e às diferentes sequências de uma mesma dança.



Quando os atores-bailarinos ocidentais querem ser enérgicos, quando querem usar toda a sua energia, eles frequentemente começam a se mover no espaço com tremenda vitalidade. Eles usam vastos movimentos, com grande velocidade e força muscular. Este esforço está associado à fadiga, trabalho duro. Os atores orientais (ou grandes atores ocidentais) podem tornar-se mais cansados quase sem se mover. Seu cansaço não é causado por excesso de vitalidade, pelo uso de amplos movimentos, mas pelo jogo de oposições. O corpo torna-se carregado com energia porque dentro dele se estabelece uma série de diferenças de potencial, que proporciona um corpo vivo, fortemente presente, mesmo com movimentos lentos ou em imobilidade aparente (BARBA e SAVARESE, 1995, p. 13).


A energia do ator:

            Segundo Ferracini (2003, p. 107): “A palavra energia vem do grego energon, que significa ‘em trabalho’.” Encontramos também outros significados como: poder, força, potência. No teatro ocidental energia pode ser traduzido por vida, ou simplesmente, a “presença” do ator. Já no teatro oriental, para denominar energia, encontramos termos como: koshi, animus e anima, keras e manis, entre outros. Para Barba (1995, p. 81) energia é “uma temperatura de intensidade pessoal que o ator pode determinar, animar, moldar e que, acima de tudo, necessita ser explorada.”



A energia do ator é uma qualidade facilmente identificável: é sua potência nervosa e muscular. O fato dessa potência existir não é particularmente interessante, já que ela existe, por definição, em qualquer corpo vivo. O que é interessante é a maneira pelo qual essa potência é moldada num contexto muito especial: o teatro. (…) Estudar a energia do ator significa examinar os princípios pelos quais ele pode modelar e educar sua potência muscular e nervosa de acordo com situações não cotidianas (BARBA e SAVARESE, 1995, p. 74).


            Na tradição japonesa, koshi é atribuído a uma parte específica do corpo: o quadril. Sempre que caminhamos, o nosso quadril segue o movimento das pernas. Se queremos diminuir o movimento do quadril para criar um eixo fixo no corpo, temos de dobrar os joelhos e movimentar o tronco como se fosse um único bloco. Impedindo que o quadril siga o movimento das pernas, cria-se dois níveis de tensão no corpo: as pernas devem mover-se, enquanto o tronco e a coluna forçam para baixo, sobre o quadril. A conciliação desses dois níveis de tensão opostos pede um equilíbrio próprio, implicando a cabeça e os músculos do pescoço, tronco, bacia e pernas. Com tudo isso: “O tônus muscular total do ator é alterado. Ele usa muito mais energia e precisa realizar um esforço maior do que quando caminha de acordo com sua técnica cotidiana (BARBA e SAVARESE, 1995, p. 77).”
            Segundo Barba: “Os termos animus e anima (do latim, significando ar, respiração). É um vento que anima as ações do ator. Mas como se faz soprar este vento? Pelo domínimo preciso das posições do corpo, que são baseadas numa bem articulada distinção entre tensões suaves e fortes (1995, p. 83).” A essas “posições do corpo” podemos chamar de keras e manis, que são termos também aplicados aos vários movimentos produzidos por esse corpo. Keras significa forte, duro, vigoroso e manis, ao contrário, significa delicado, suave, terno.
            A energia animus ou anima, descrevem dois pólos de energia: a primeira é a energia feminina, leve, suave; já a segunda, animus, é a energia masculina, pesada, vigorosa. São dois termos que não fazem referência à sexualidade ou à distinção entre masculino e feminino, mas a uma alternância do fluxo de energias. Segundo Barba: “O uso dessa alternância do fluxo de energia é muito claro quando se pensa em atores universalmente conhecidos como Charles Chaplin. (…) A qualidade da energia de Chaplin é suave, tipicamente anima, mas ninguém sonharia dizer que ele é feminino (1995, p. 78).” A tarefa de um ator é buscar as tendências individuais da própria energia e proteger suas potencialidades, sua individualidade. “O processo de dominar suas próprias energias é extremamente demorado: é um verdadeiro novo condicionamento (BARBA e SAVARESE, 1995, p. 245).”



Durante o treinamento, o ator ou atriz pode modelar, misturar, explodir e controlar suas energias, deixá-las ir e jogar com elas, como algo incandescente que, não obstante, é controlado com precisão fria. Usando os exercícios de treinamento, o ator testa a habilidade para adquirir uma condição de presença total, uma condição que terá de encontrar novamente no momento criativo da improvisação e da representação (BARBA e SAVARESE, 1995, p. 246).     

           

            Essa energia pode ser suspensa? A energia do ator pode ficar suspensa numa imobilidade em movimento? Segundo Eugênio Barba:



No instante que precede a ação, quando toda a força necessária se encontra pronta para ser liberada no espaço, mas como que suspensa e ainda presa ao punho, o ator experimenta a sua energia na forma de sats, preparação dinâmica. O sats é o momento no qual a ação é pensada e executada por todo o organismo que reage com tensões, também na imobilidade. É o ponto no qual se está decidido a fazer. Existe um empenho muscular, nervoso e mental já dirigido a um objetivo. É a extensão ou a retração da qual brota a ação. É a mola antes de saltar. É a atitude do felino pronto para tudo: pular, recuar ou voltar à posição de repouso. É um atleta, um jogador de tênis ou um pugilista, imóvel ou em movimento, pronto para reagir (BARBA apud FERRACINI, 2003, p. 104).



            No comportamento físico do ator, a passagem da intenção à ação (instante que precede a ação), quando toda a força necessária se encontra pronta para ser liberada no espaço, mas como que suspensa e ainda presa ao punho, o ator experimenta a sua energia na forma de sats. O sats é impulso e contra-impulso. Ferracini (2003, p. 103) diz que: “No caso do ator, a palavra ‘impulso’ toma um sentido particular de empurrar ou arremessar com força, de dentro. Esse algo arremessado de dentro para fora vai, posterior e imediatamente, tomar corpo e transformar-se em ação física orgânica.”



Já a noção de contra-impulso é exatamente o que sugere o nome, um impulso contrário. Como exemplo, podemos citar uma ação de arremessar. Antes do arremesso, o atleta, ou ator, realiza sempre um contra-impulso com o intuito de acumular energia para o arremesso. Quanto maior o contra-impulso, maior o impulso do arremesso. Dessa forma, o contra-impulso funciona como um acumulador de força e energia (FERRACINI, 2003, pp. 104-105).



            Segundo Grotowski, Barba utiliza o termo escandinavo sats para dar nome àquilo que poderia ser chamado de antiimpulso, antimovimento. Grotowski diz que o sats “pode ocorrer em níveis diferentes, como uma espécie de silêncio antes de um movimento, um silêncio preenchido com potencial, ou pode ocorrer como a interrupção de uma ação num dado momento (BARBA e SAVARESE, 1995, p. 236).”
            Todo ator sabe distinguir o sats da inércia      gesticulatória que faz com que os movimentos rolem uns sobre os outros sem força interior. O sats compromete o corpo inteiro. A energia que se acumula no tronco e pressiona as pernas pode ser canalizada tanto na carícia de uma mão como nos passos velozes de uma corrida, num tranquilo virar dos olhos, no salto do tigre ou no vôo da borboleta. O sats é uma descarga minúscula na qual o pensamento inerva-se na ação e é experimentado como pensamento-ação, energia, ritmo no espaço.
            Iben Nagel Rasmussen, trinta anos atuando no Odin Theatre, chegou a enunciar qualidades de energias na cena: “O ‘Guerreiro’ forte e vigoroso; a ‘Gueixa’ suave e delicada, o ‘Velho’ consciente e ponderado e o ‘Clown’ lírico e angelical (FERRACINI, 2003, p. 109, grifo meu).”




[1] Fundador da International School of Theatre Antropology - ISTA
[2] Organicidade é uma inter-relação integral corpo-mente-alma, uma espécie de totalidade psicofísica. É como ser o verbo ESTAR. Um estar pleno, vivo e integrado (FERRACINI, 2003, p. 111).
[3] Segundo Eugênio Barba, “a antropologia foi entendida como o estudo do comportamento do ser humano, não apenas no nível sóciocultural, mas também no nível fisiológico. A antropologia teatral é, portanto, o estudo do comportamento sociocultural e fisiológico do ser humano numa situação de representação (BARBA e SAVARESE, 1995, p. 8).”
[4] As técnicas cotidianas do corpo são caracterizadas pelo princípio do esforço mínimo, ou seja, alcançar o rendimento máximo com o mínimo custo de energia. Já as técnicas extracotidianas, ao contrário, baseiam-se no esbanjamento de energia, ou seja, usar o máximo de energia para um resultado mínimo.
[5] O nível que se ocupa com o como tornar a energia do ator cenicamente viva, isto é, com o como o ator pode tornar-se uma presença que atrai imediatamente a atenção do espectador, é o nível pré-expressivo, e é o campo de estudo da antropologia teatral. Este substrato pré-expressivo está incluído no nível de expressão, percebido na totalidade pelo espectador. Entretanto, mantendo este nível separado durante o processo de trabalho, o ator pode trabalhar no nível pré-expressivo, como se, nesta fase, o objetivo principal fosse a energia, a presença, o bios de suas ações e não seu significado. O nível pré-expressivo pensado desta maneira é, portanto, um nível operativo: não um nível que pode ser separado da expressão, mas uma categoria pragmática, uma práxis, cujo objetivo, durante o processo, é fortalecer o bios cênico do ator (BARBA e SAVARESE, 1995, p. 188).
Segundo Ferracini (2003, p.99), pré-expressividade é aquilo que vem antes da expressão, da personagem construída e antes da cena acabada. É o nível onde o ator produz e, principalmente, trabalha todos os elementos técnicos e vitais de suas ações físicas e vocais. É o nível da presença, onde o ator se trabalha, independente de qualquer outro elemento externo, quer seja texto, personagem ou cena. (…) podemos dizer que há um nível básico de organização, comum a todos os atores, e anterior à expressão em si. A esse nível básico de organização poderíamos denominar “pré-expressividade”.
[7] Ferracini faz a seguinte descrição morfológica de como se trabalhar o koshi: Primeiramente, amarra-se fortemente um tecido na região abdominal, e o ator anda lentamente pelo espaço, com os joelhos flexionados, buscando sentir a região amarrada. Tanto o andar como o mudar a direção do andar devem ser sempre controlados por esse ponto. Num segundo momento, tira-se o tecido e tenta-se simplesmente andar com o koshi, buscando a mesma sensação corpórea, como se o tecido permanecesse ainda amarrado. Passado um tempo de treinamento, somente andando com o koshi, o ator pode começar lentas e pequenas ações, como baixar, ficar na ponta dos pés e girar o tronco. Todas essas pequenas ações devem ter o ponto original na região do koshi. Assim, não é o ator que levanta, abaixa ou gira, mas é seu koshi que o faz. Esse deslocamento e concentração dos impulsos originários das ações, a partir do koshi, cria uma outra relação muscular do ator com suas ações, ocasionando a condensação da energia nessa região. A partir dessa concentração energética, o ator pode tentar treinar e buscar mecanismos que o permitam controlar o koshi em uma espécie de farol, que emana uma luz forte nessa região. A densidade da luz, mais forte ou mais fraca, mais quente ou mais fria, determina a quantidade de energia utilizada. Essa imagem objetiva ajudar o ator a encontrar as microtensões corpóreas que o permitem soltar e reter a energia, ou ainda transformá-la em uma energia suave ou muito forte. Em um terceiro momento desse exercício, as ações, sempre a partir do koshi, podem ficar mais complexas. Nesse ponto, geralmente, o orientador cria estímulos para que elas aconteçam, como, por exemplo, jogar objetos pela sala para que os atores os peguem, soltem e entreguem a outro ator, realizando as ações cotidianas sempre pelo koshi. Nessas ações complexas, deve-se buscar sempre posições de equilíbrio precário e oposições corpóreas. Esses fatos redimensionam a ação cotidiana, criando um equivalente energético extracotidiano dessas mesmas ações (FERRACINI, 2003, pp. 162-163).

         




 

BUSCANDO UMA RELAÇÃO DE APRENDIZAGEM

 
            Segundo Luis Otávio Burnier (2001), para um aprendiz, o processo de iniciação pode ser um momento delicado, visto que o indivíduo é totalmente exposto ao ridículo. Por se tratar de um processo “profundo” e vivido de maneira condensada, o LUME procura realizá-lo em situação de retiro, uma “residência de artistas”, numa fazenda ou chácara, ou qualquer lugar agradável e apropriado para que os aprendizes, isolados do resto do mundo, vivenciem, de forma intensa, um treinamento de clown.  

Num retiro para o estudo do clown e do sentido cômico, como costumo chamar, tudo é feito buscando conciliar técnica e criatividade, sofrimento e riso, rigor e humanidade. Durante o retiro, vivenciam-se momentos muito particulares, como a troca da pele do clown, o picadeiro, a jornada clown… A jornada clown, para que se tenha uma idéia, é um dia inteiro vivido com o nariz vermelho. Isso significa ao longo de todos os trabalhos e afazeres: desde o treinamento até o almoço e a hora do lazer na piscina… É inimaginável o que pode acontecer num almoço com 20 clowns juntos (BURNIER, 2001, p. 212).

Renato Ferracini, ator/pesquisador e integrante do LUME, comenta:

Nesse local, os atores passam dez dias trabalhando de dezesseis a dezoito horas diárias. Neste “retiro de clown”, nome dado a tal processo iniciático, estabelece-se um jogo simples: todos os que passarão pelo processo de iniciação são clowns procurando emprego, enquanto o dono do circo, Monsieur Loyal,  está a procura de outros clowns para contratar. Portanto, para os clowns, Monsieur Loyal é como um “deus” que poderá dar-lhes a oportunidade de estar trabalhando no circo. Estabelece-se, dessa forma, um jogo durante 24 horas por dia, em que o(s) orientador(es) do trabalho, no caso o Monsieur Loyal, buscará colocar os atores em situações-limite de constrangimento (FERRACINI, 2003, p. 219).
            Katia Maria Kasper, pesquisadora e professora do departamento de ensino do setor de educação da Universidade Federal do Paraná – UFPR/Brasil, em 1995 participou, como observadora, de um retiro de iniciação ao clown ministrado pelos atores e pesquisadores Ricardo Puccetti e Carlos Simioni, ambos integrantes do grupo LUME. Kasper descreve o encontro da seguinte forma:

A dinâmica do Encontro compreendeu uma rotina esgotante, com um trabalho corporal extremamente intenso. Desde o primeiro dia, iniciou-se um exercício de desorganização do corpo e dos seus gestos cotidianos, com jogos que buscavam uma mudança do centro gravitacional do corpo de cada um. Dentre eles, destaco aquele no qual os participantes deveriam andar com uma parte do corpo dando o impulso: andar com o pé dando o impulso; depois, quem comandava o andar era o nariz; depois, o ombro, o quadril, o peito, o joelho, o estômago, a mão esquerda... Para que isso acontecesse, foi necessário um grau de intensidade e uma rapidez, além de uma desorganização do andar cotidiano, difíceis de alcançar. Não se trata de representar, mas de fazer; e aparece, na ação, se está ou não acontecendo. A esse jogo foram se juntando outros, oferecendo mais elementos de desorganização. Tratava-se de um trabalho muito intenso de produção de deslocamentos. Deslocamentos quanto à postura corporal, deslocamentos em relação às atitudes costumeiras, à percepção, às formas habituais de ação e reação, aos modos de sentir, de agir, etc. Uma aprendizagem também no sentido de abrir outras conexões possíveis entre cada participante e tudo o que estava em volta. Podemos pensar que encontramos aí experimentações que fazem do corpo uma potência que não se reduz ao organismo — um conjunto de funções — e do pensamento uma potência que não se reduz à consciência. Ao mesmo tempo que criavam situações inusitadas, nonsense, constrangimentos, para provocar ações não-cotidianas dos atores e construir os clowns, os coordenadores mapeavam e exploravam os novos gestos, os novos modos sutis de percepção que começavam a surgir a partir desses deslocamentos. Os atores precisavam aprender a repetir essas ações, a codificá-las. Codificação necessária apenas como uma linha inicial para construir o clown. Não é definitiva, não pode se fixar, a não ser momentaneamente. Sempre se partirá para uma nova linha de fuga, senão o trabalho de ator morre, torna-se “uma caricatura de si mesmo”, nas palavras do atual responsável pelo trabalho com clown, Ricardo Puccetti (KASPER, 2009, p. 204).

            Segundo Kasper (2009), o LUME busca trabalhar com técnicas “não interpretativas”, ou seja, o ator não é levado a interpretar um personagem, e sim a descobrir possibilidades, possibilidades que são dele, desconhecidas e não criadas por ele, construídas experimentalmente a partir das variações de energia e de ações. “E, com o clown, inúmeras possibilidades de relações com outrem, clowns ou não, experimentações com objetos, adereços, produzindo variações em torno de modos de construção de si (KASPER, 2009, p. 205).” Não tentar interpretar ou explicar o que acontecia, era uma regra do jogo, que tornou-se um desafio para muitos. No entanto, uma exigência frequente e necessária para a elaboração do clown.

Produziam-se, nesse espaço e tempo singulares, maneiras as mais diversas e inusitadas de agir, sentir, pensar, ao mesmo tempo que os participantes eram levados, por um jogo de constrangimentos crescentes, a sair de seus automatismos físicos, deixando escapar os gestos em fuga. Com eles constrói-se o corpo clownesco. Gestos em fuga seriam justamente esses que escapam aos hábitos, ao controle, aos automatismos. Gestos que não são forma e movimento, mas afecções provocadas. Todo o trabalho extremamente exaustivo e incansável é feito nesse sentido de produzir essa disponibilidade para o que acontece naquele momento, ampliar a capacidade de deixar-se afetar (KASPER, 2009, p. 205).
           
            Burnier (2001) vê o clown como um bufão sofisticado, lapidado, e que trás, sutilmente, características da herança grotesca desse histrião. Burnier salienta a importância do ator explorar essa relação: clown X bufão. Para ele essa relação deve ser mantida no aprendizado prático. “Encontrar o próprio bufão, as deformações físicas e comportamentais capazes de revelar o ‘avesso’ do ator, é importante no processo de busca do próprio clown (BURNIER, 2001, p. 216).” O contato com o bufão se dá de maneira extrovertida e jocosa, onde praticamente tudo pode ser feito e mostrado descaradamente.
O clown é um ser que tem suas reações afetivas e emotivas todas corporificadas em partes precisas de seu corpo, ou seja, sua afetividade transborda pelo corpo, suas reações são todas físicas e localizadas. Essa característica é uma das heranças do bufão, que, devido às suas deformidades, é sensível física e corporeamente. O clown, como o bufão, não tem uma lógica psicológica estruturada e preestabelecida. Ele não é personagem. Ele é simplesmente. A lógica do clown é físico-corpórea: ele pensa com o corpo.
Realizamos diversos exercícios de bufão visando fornecer, ao ator, a vivência da realidade bufonesca: a vida em banda, sua hierarquia interna, as regras de convivência entre os membros de uma banda, o comportamento físico e vocal de cada bufão (sua corporeidade), a relação entre bandas diferentes e, sobretudo, a relação do chefe e do idiota (BURNIER, 2001, p. 217).

            Segundo Débora de Matos (2009), num treinamento com a máscara do bufão os iniciantes são levados a uma exposição pessoal. Utiliza-se, principalmente, procedimentos de paródia e composição das deformidades do corpo. Tais deformações levam o iniciante a uma limitação física, obrigando-o a explorar outras possibilidades corpóreas. São trabalhados caracterizações do tipo: corcunda, barriga exagerada, exacerbação de órgãos genitais, gigante, anão, anomalias, etc. Compor as deformidades proporciona ao iniciante uma pré-disposição para o jogo e a brincadeira, além de levá-lo a experienciar aspectos da animalidade, que é uma forma particular de assumir uma atitude grotesca frente ao mundo.
As deformações desempenham papel similar à máscara do palhaço. No trabalho do palhaço, o nariz vermelho, a maquiagem e o figurino não estão ali unicamente a serviço de uma estética, mas apresentam-se como uma “herança grotesca do bufão.” (…) A prática com o bufão confere ao artista um gestual grotesco e provocador. Valorizam-se atitudes que perpassam a agressividade, a blasfêmia e a jocosidade. O artista cria tensão junto ao espectador, ao mesmo tempo em que provoca uma explosão de gargalhadas (MATOS, 2009, p. 21).

E ainda,
A loucura, desenvolvida na perspectiva do bufão, é ingrediente que proporciona ao trabalho do artista liberdade e beleza. Por meio do treinamento com o bufão, o artista tende a adquirir uma percepção alterada, conferindo aos seus sentidos uma atitude menos repressiva. Valoriza-se, com isso, o prazer pela brincadeira e a animalidade das relações.
O prazer pela brincadeira e o estado de liberdade do artista são importantes fundamentos à prática de atuação desses histriões. O artista desprovido de uma repressão moral ou conceitual, coloca-se livre para relacionar-se com o meio, uma relação guiada pela exposição exagerada de aspectos animalescos, das paixões e dos vícios humanos (MATOS, 2009, p. 23).

                Juliana Jardim, na seu artigo: O ator transparente: reflexões sobre o treinamento contemporâneo do ator com a máscara do palhaço e do bufão, identifica, nos textos e práticas estudados, os seguintes princípios e conteúdos:
·         São valorizados aspectos da marginalidade, de tudo o que é proibido, das verdades ocultas.
·         O bufão recupera aspectos animalescos do homem.
·         O bufão parodia a realidade que o circunda, buscando revela-la criticamente. Por isso pode encarnar a consciência dilascerada – em nosso caso, daquele que está por detrás da máscara.
·         O treinamento com o bufão explora o exagero, a expressividade do ator em sua máxima potencialidade.
·         O treinamento com o bufão trabalha a sexualidade exacerbada e a religiosidade blasfemada.
·         O bufão tem direta relação com o mundo do grotesco.
·         O aspecto grotesco trabalhado pela máscara do bufão pode, muitas vezes, ultrapassar o universo cômico, explorando os aspéctos mais terríveis do homem, de sua tragédia.
·         O bufão é desagradável e provoca, muitas vezes, repulsa no espectador.
·         O treinamento do bufão parte com a deformação corporal, levando o ator a criar limitações físicas.[3]

A técnica do bufão tratada em relação de complementaridade com a do palhaço pode ser engrandecedora para o trabalho do ator, por tratar simultaneamente de aspectos opostos, mas reveladores da complexidade humana. É na união das duas, como treinamento, que vislumbramos a possibilidade de interpretação do ator em estado de transparência (JARDIM, 2002, p. 23).

Para Beth Lopes,
 
Trabalhar com o bufão sem dúvida é assumir os riscos da experiência teatral. Sob outro prisma, pode oferecer um material específico para o trabalho do ator, o qual abre, por sua vez um plano horizontal de possibilidades. Ele pode representar uma dimensão original para a formação e para as práticas do ator. Sem receio da linguagem “baixa” para tratar dos temas “altos”, o trabalho do ator rompe os limites da elegância e do sentimentalismo que parecem envolver toda a filosofia do teatro sério. Sendo assim, a experiência com o bufão é ir contra o “politicamente correto” da representação teatral. É mesmo eleger essa incorreção como maneira de atuar (LOPES, 2005, p. 20).
            Ricardo Puccetti, ator/pesquisador e integrante do LUME, também “formador” na linguagem do clown, em seu artigo No caminho do palhaço, faz algumas separações acerca da sua metodologia de trabalho. Segundo ele, “na prática tudo vai acontecendo ao mesmo tempo (PUCCETTI, 2009, p. 122).”
Inicialmente, em minha maneira de trabalhar, os alunos vão passar pela experiência do treinamento energético, que se fundamenta no trabalho a partir da exaustão física, ou seja, por um período prolongado de tempo os corpos devem se mover, sem pausas, variando ritmos e dinâmicas, numa sequência alucinante de ações e reações físicas, no espaço externo ou em ações internas, assim se pode despertar e dilatar os impulsos físicos e entrar em contato com camadas musculares profundas, o que significa vivenciar sensações que apenas o uso cotidiano do corpo não permite. Trata-se de diminuir o lápso de tempo entre o impulso físico e a concretização da ação no espaço. Por esse caminho, o aprendiz experimenta o “não pensar” e somente “agir com o corpo”, o que seria na verdade, “pensar com o corpo”. Através da construção dessa espécie de “dança” cada um desenvolve sua própria maneira de liberar seus impulsos físicos e manter-se num estado de prontidão e concentração que o conecta interna e externamente, dilatando sua presença física (o que mais tarde será sua presença cênica).
Quando observamos um palhaço nesse estado de dilatação, percebemos que algo emana dele, algo que pode não apenas ser visto, mas também “sentido”.
Simultaneamente a esse tipo de trabalho, também introduzo um treinamento técnico, que como o próprio nome já diz, visa “tecnificar”, dar forma e controle.
Utilizo diversos elementos técnicos que permitem ao aprendiz desenhar sua presença no espaço e no tempo utilizando princípios inerentes ao ofício do palhaço: precisão das ações e reações, precisão do foco, variação de ritmo, equilíbrio precário, tri-dimensão corporal, o jogo; a relação com o espaço e o parceiro, o ponto fixo, a triangulação[4], a respiração, relação com objetos, etc. Mas sem nunca esquecer que qualquer técnica seria vazia sem o detalhe da vulneralidade.
A partir do momento em que esse “estado de presença” se torna mais palpável para os aprendizes, entramos no universo do palhaço propriamente dito e passamos a experimentar o “estado de palhaço”.
(…) Basicamente, busco encontrar o estado do palhaço através da situação do “picadeiro”: o palhaço entra em cena e, a partir do nada, somente se deixando ver e se relacionando com o público, tem que construir algo. É um trabalho sutil, onde mais importante do que fazer e atuar, talvez seja perceber onde o “jogo” começa e como ele se conecta, ou não, com quem está vendo. O palhaço deve se relacionar com cada indivíduo da platéia e atuar para ele.
O “picadeiro” coloca o aprendiz em situação de desconforto, o que leva a um “desmoronamento” de suas defesas naturais, aqueles estereótipos ou formulas já prontas, às quais sempre nos apegamos nos momentos de aperto. Nessa situação surge uma série de pequenos gestos que “escapam” ao seu controle, os “gestos-em-fuga”. Estes são preciosos na composição do palhaço, pois são como “sementes”, algo muito pequeno, mas que contém um embrião do futuro comportamento físico do palhaço e de sua lógica de interação com o mundo.
O “picadeiro” ensina o palhaço a dar seus primeiros passos no sentido de perceber o que fazer diante da platéia, e também o como fazer, o que funciona ou não para cada um, como repetir o que funcionou, como controlar o tempo variando ou mantendo o ritmo e, acima de tudo, como ser sincero e atuar com prazer e no tempo presente. Aos poucos os aprendizes vão conseguindo ampliar o tempo que eles conseguem estar disponíveis, preenchidos pelo estado de palhaço, o chamado tempo de sustentação do jogo, que seria a capacidade de se manter no estado, de jogar (agir e reagir) a partir da lógica do palhaço.
Com o tempo, cada palhaço começa pouco a pouco a coletar material: ações e reações físicas, andares, olhares, sons, etc., que vão compondo e construindo seu comportamento físico e sua lógica de raciocinio e de utilização do corpo. Idéias para futuras cenas também aparecem e o palhaço começa a manusear seu repertório (que surge através do treinamento energético e técnico, do “picadeiro”, de improvisações com objetos, parceiros, de improvisações na rua, etc.) e a buscar como construir algo que seja cômico e ao mesmo tempo toque o público, provocando ou emocionando. Como fazer pode até ser mais importante do que aquilo que o palhaço faz em cena. Um outro aspecto que parece nesse momento é que tipo de estrutura de número (ou espetáculo) vai funcionar para cada um: uma que seja muito codificada e com pouco espaço para o acaso ou uma que seja mais aberta e permita uma relação mais aberta com o público. Ele é um degrau importante: todo aprendiz de palhaço tem que construir uma estrutura, uma cena, um pequeno número, que seja, para testar com o público. É um salto fundamental na aprendizagem.
Nesse momento do trabalho, o aprendiz começa a perceber o seu próprio tipo de humor e o que funciona para ele frente a um público e ele chega a novas questões tão cruciais quanto as anteriores: O que ele quer causar no público? Que tipo de riso ele quer provocar? Que riscos ele quer correr enquanto palhaço? Como ele quer que sua arte de fazer rir atue na sociedade da qual faz parte?
E ele vai então começar a entender o quão essencial é a figura do palhaço, este viajante no tempo e na história da humanidade, através dos mais diversos espaços, para um mundo que cada dia mais perde sua capacidade de brincar e reiventar.
E que privilégio e responsabilidade é ser um palhaço como tantos outros espalhados mundo afora e por sociedades tão distintas, fazendo a humanidade rir e se confraternizar em suas diferenças e semelhanças.
E aí o aprendiz de palhaço percebe que ele não tem outra escolha a não ser continuar caminhando…(PUCCETTI,  Revista do LUME nº 7, 2009, pp. 122-123).

            Além das investigações e vivência com a prática clownesca os integrantes do LUME realizam intercâmbios com outros clowns, a fim de comparar e confrontar o seu modo específico de trabalhar. Um desses intercâmbios se deu com o clown italiano Nani Colombaioni, palhaço e membro de uma das mais tradicionais famílias circences italianas, e descendente de uma importante linhagem de cômicos que remonta a época da commedia dell’arte. Segundo Renato Ferracini (2003), Nani utiliza de técnicas circenses nos treinamentos de clown. Para Nani o aprendiz pode encontrar o seu clown a partir de elementos externos a ele, como por exemplo, utilizando práticas de malabarismo, acrobacia e outras. Um caminho oposto daqueles que buscam construir o seu clown a partir da dilatação da ingenuidade e do ridículo, ou seja, o um caminho de “dentro para fora”. No que concerne à linguagem do clown, o encontro com Nani Colombaioni veio enriquecer o trabalho do LUME, e apesar das divergências, as duas formas de se trabalhar buscam o mesmo fim.[5]  
            Ricardo Puccetti, no seu artigo O riso em três tempos, comenta que o método de aprendizagem utilizado por Nani Colombaioni é completamente diferente das metodologias usadas atualmente no ensino do teatro. Seu método ainda é o mesmo daqueles utilizados pelas antigas famílias da commedia dell’arte e posteriormente pelas famílias de tradição circense. Segundo ele:

A principal característica desta metodologia é o fato de que o aprendiz é incorporado à família, passando a compartilhar o cotidiano e as experiências vividas por ela. Do aprendizado fazem parte não apenas as técnicas circenses em geral e do clown especificamente, mas o trabalho cotidiano que o aprendiz acaba realizando (ex: ajudar no concerto de um carro, na construção de um equipamento circense, cortar grama, tratar de animais, etc.), e também a convivência humana que ele desenvolve com a família. Esta metodologia traz uma diferença fundamental, pois além do conteúdo técnico específico (o trabalho do clown), o aprendiz é inserido num sistema de valores muito bem estruturado, com regras bem delineadas, o que permite o contato com todos os princípios éticos que regem o trabalho do palhaço, do artista circense e, porque não, do artista em geral (PUCCETTI, Revista do LUME nº 1, 1998 p. 69).
           
Numa entrevista concedida em 1998 Ricardo Puccetti faz o seguinte comentário:
É impressionante como realmente a família incorpora o aprendiz, com os mesmos direitos e deveres, com a responsabilidade de fazer bem os trabalhos que são a base da família. E, de outra parte, o mesmo aconteceu comigo, que me senti um Colombaioni por 15 dias. São também incríveis a afeição, o respeito humano mútuo que se estabelecem e a ligação que se cria em tão pouco tempo, tendo como base o trabalho e a convivência. Quando eu cheguei, dona Giulia e Nani me disseram: “Sinta-se como se fosse da família. Agora nós somos seu pai e sua mãe.” E isso realmente aconteceu (FERRACINI, 2003, p. 223).

            Segundo Renato Ferracini, trabalhar com o mestre clown Nani Colombaioni é dedicar 10 horas diárias a trabalhos intensos. “Nani trabalha em, pelo menos, três grandes frentes: com o material que o aprendiz traz, o aprendizado de técnicas circenses e do repertório clássico do clown, e com a técnica do clown em si. Misturando esses elementos ele constrói, com o aprendiz, um espetáculo (FERRACINI, 2003, p. 223).”
            Outra contribuição importante do método de aprendizagem utilizado por Nani para encontrar a essência dos clowns é a realização de tarefas cotidianas. Por meio dessa dinâmica o ator é levado a perceber a sua lógica e a encontrar uma maneira de exercitar o seu clown. “É como se o ator aprendesse a sublinhar características próprias que indicassem o caminho do seu clown. Após dois dias observando as atitudes de Ricardo Puccetti, Nani disse: ‘Já entendi o espetáculo que vamos fazer. Você é daquele tipo que tenta fazer tudo, mas não faz nada direito’ (FERRACINI, 2003, p. 225).” Sacchet, em seu trabalho, relata o primeiro encontro entre Ricardo Puccetti e Nani Colombaioni:
‘Você chegou cedo, você chegou dois dias antes. Tá bom. Então a gente começa segunda-feira, mas hoje, sábado, eu quero ver o material. O que você tem pra me mostrar?’ Puccetti fazia um número, fazia outro, e Nani sério. Era ainda pior quando ele falava ‘Tá, tá, ok, tá bom, tá bom, já entendi. Agora vem aqui, eu estou com uma lâmpada queimada, me troca a lâmpada…’ Havia um poste na casa dele, um poste gigante. E Puccetti deparava com Nani preferindo vê-lo trocando a lâmpada do que fazendo o número. ‘Certo, certo. Ok. Vamos ver outro número.’ E assim foram eles alternando número e situações reais até que acabou o final de semana e Nani falou ‘já entendi a sua lógica. Você é aquele que não sabe fazer nada direito. Então é isso. Então nós vamos trabalhar assim’ (SACCHET, 2009, pp. 124-125).
Nani ficava mostrando coisas e dando tarefas para fazer, num ritmo tão maluco que não se conseguia pensar. Então o aprendiz acabava ficando confuso e agindo como clown. Assim, pouco a pouco, Nani vai estudando a lógica de raciocínio, a lógica de ação e reação, o tempo/ritmo, tudo a partir de tarefas cotidianas concretas e, com estas observações, ele orienta o trabalho de clown propriamente dito (PUCCETTI, Revista do LUME nº 1, 1998, p. 70).

            Foco e Tempo são dois elementos de suma importância na metodologia usada por Nani Colombaioni. Ele diz: Uma ação de cada vez. O clown não é um doente mental que faz o público rir; é um artista que faz o seu trabalho[6]. “O clown deve estar concentrado naquilo que está fazendo. Se está envolvido em um problema com uma cadeira, seu foco está na cadeira, mas ele tem que saber abrir esse foco para o público. E mais, saber discernir o momento de abrir ou fechar o foco (FERRACINI, 2003, p. 224).” Com relação ao Tempo Ferracini faz o seguinte comentário:

Se o ator não tem o conhecimento do tempo necessário para tornar a ação risível, no caso de encontrar uma platéia desconhecida, ele corre o risco mais comum de acelerar as ações e procurar resolver sua partitura rapidamente. No entanto, muitas vezes isso ocorre por consequência do público ainda não ter entrado no jogo proposto pelo clown, ou não ter entendido o absurdo da ação, que está calcada na lógica pessoal do clown. A aceleração descompassada da ação pode destruir a construção dessa lógica, além de tornar o trabalho mecânico e estereotipado (FERRACINI, 2003, pp. 224-225).
            Outro quesito importante apontado por Nani Colombaioni diz respeito à serenidade que o clown deve ter antes ou depois de executar uma ação qualquer.

Ele diz que o clown deve conversar com seus objetos, cantar para eles, dar o tempo para a ação acontecer, sem pressa. O que não impede que existam aqueles clowns que são muito rápidos, pois é nessa rapidez que eles encontram seu embaraço. Mas, de qualquer maneira, o ator por trás do clown precisa ter clareza e calma para não tornar esse embaraço uma sequência tão desordenada na qual o público não consiga entrar para jogar. A calma na ação e a “conversa” com objetos transformam o objeto em interlocutor do clown. É assim que se cria a lógica própria destas ações que o público contemplará, e mesmo sem querer comparará com sua própria lógica. Graças a este duplo jogo, o clown revela-se como ser pensante, como normal, e é no desencontro entre a lógica do clown e a lógica do público que reside o riso (FERRACINI, 2003, pp. 225-226).

            O mestre clown Nani Colombaioni e sua família conservam a tradição da arte do palhaço, que vem sendo passada a gerações, sem perder a sua origem, com as adequações necessárias a cada época. Segundo Puccetti, “Nani conhece e domina a estrutura do riso, o que podemos chamar de ‘esqueleto’ do riso, os princípios técnicos fundamentais do cômico (PUCCETTI, Revista do LUME nº 1, 1998, p. 70).”
Ele tem um repertório de cenas e de gags codificado nos mínimos detalhes, repertório este passado de pai para filho e também recriado e ampliado a cada nova geração, que consiste em verdadeiras partituras físicas. (…) Com Nani pudemos perceber que, independente do estilo, é comum a tudo que envolva o cômico (palhaço de circo, clown de teatro ou de rua, ator farsesco, etc). O que diferencia um do outro é o estilo, a linguagem estética, os contextos trabalhados. (PUCCETTI, Revista do LUME nº 1, 1998, p. 70-71).         

            Um treinamento mais técnico, seguido o processo de iniciação do clown, é de fundamental importância para o amadurecimento técnico/corpóreo do ator. Aprender a organizar e avezar-se com essa condição do ridículo e ingênuo, isso, através de exercícios simples. Buscar perceber, através do seu corpo, a sua lógica, tanto em relação ao outro como em relação ao meio que o cerca, a encontrar o seu ritmo próprio e a sua maneira pessoal de jogar. “Com o material recolhido nesses exercícios, o ator constrói gags, que são pequenas esquetes cômicas, e que servem como laboratório vivo para todo o trabalho realizado. Posteriormente, essas gags independentes podem ser agrupadas e transformadas em um espetáculo (FERRACINI, 2003, p. 220).”








[1] Segundo Eugênio Barba, “a antropologia foi entendida como o estudo do comportamento do ser humano, não apenas no nível sóciocultural, mas também no nível fisiológico. A antropologia teatral é, portanto, o estudo do comportamento sociocultural e fisiológico do ser humano numa situação de representação (BARBA e SAVARESE, 1995, p. 8).”


[2] Não tenho a pretenção, com este estudo, de oferecer ao ator uma técnica pronta, mas indicar princípios que, segundo Eugênio Barba, regem a vida extracotidiana. Que os princípios apontados neste estudo servissem de “alicerce” para o ator,  num treinamento de clown. Como diz Ferracini: “É uma nova aprendizagem, na qual o ator deve reeducar seu corpo para que ele se transforme em um corpo cênico, potencialmente artístico, a fim de comunicar ao público, de maneira organizada e otimizada, toda sua organicidade e sua vida (2003, p. 144).”

Os princípios a que me refiro, e cujos fundamentos podem corroborar o trabalho técnico-corpóreo do ator num processo de treinamento de clown, podem ser combinados em três linhas de ação: a alteração do equilíbrio cotidiano à procura de equilíbrio precário ou de luxo; a dinâmica das oposições; e a energia do ator.


[3]Assim como ocorre no treinamento com a máscara do Palhaço, o coordenador também assume um jogo de autoridade em relação ao ator. Porém, a autoridade aqui é amplificada. O coordenador pode até transformar-se em um tirano, superior como o Monsieur Loyal, mas imprimindo uma nova característica em sua atitude: o enfrentamento. Exacerba as ameaças feitas aos bufões, geralmente trabalhados em grandes grupos (bandos), enfrentando-os, algumas vezes até de maneira agressiva. Alguns coordenadores batem verdadeiramente nos bufões. Os tapas ficam mais fortes e podem ser substituídos por boladas, golpes com ponta de toalha molhada, etc. O jogo instaurado é semelhante ao treino com o Palhaço, mas a relação aproxima- se bastante da realidade. Acredita-se no bom senso e na ética dos coordenadores para equilibrarem a verdade, a crueza e a realidade dentro da situação de cada jogo, preservando a integridade física do ator em treinamento (JARDIM, Revista Sala Preta, nº 2, 2002, p. 22).


[4] A triangulação constitui uma técnica fundamental para a performance do clown. Trata-se de termo utilizado no teatro para designar o ato de olhar para o público, quebrando a denominada quarta parede, o que é diferente de olhar na direção dele. É uma técnica bastante utilizada na comédia. Para o clown, a triangulação é um modo de compartilhar com o público e com o companheiro de cena alguma sensação que está manifesta. Ela permite visualizar as possibilidades de ação e conduzir a dramaturgia. Por meio da triangulação, o ator convida a platéia para participar da cena (MACHADO, 2005, p. 85).


[5] O LUME busca primeiramente o pessoal, o caráter individual, aquilo que, de algum modo, é essencial à pessoa, e somente depois o que o clown vai fazer. Nani trabalha, aparentemente, de maneira inversa. Primeiro, o clown-aprendiz deve adquirir uma série de técnicas, memorizar e saber fazer bem as cenas, gags e toda a coreografia do espetáculo, para em um segundo momento, aplicar o seu caráter, a sua pessoa, o seu ritmo pessoal ao espetáculo. Esse segundo momento é justamente o que Nani chama de uma “comicidade pessoal”. Ou seja, o aprendiz deve descobrir a sua maneira própria de realizar aquela gag ou ação cômica proposta (FERRACINI, 2003, p. 223).


[6] Palavras de Nani, mediante Ricardo Puccetti, em entrevista. Mimeo, 1998.


[1] DORNELES, Juliana Leal. Clown, o avesso de si: Uma análise do clownesco na pós-modernidade.
[2] Luís Otávio Sartori Burnier Pessoa de Mello (1956 - 1995) – Fundador do LUME – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP.