terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

INTERVENÇÃO ARTÍSTICO/SOCIAL: ENVELHECER COM HUMOR


Viver mais tempo implica envelhecer. Maior longevidade não é um
fatalismo ou uma ameaça. É uma vitória da humanidade e uma
oportunidade de potenciar o «património imaterial» que
significa o contributo das pessoas mais velhas.[1]


Por Klaas Kleber

            Na contemporaneidade, com o alcance da longevidade da população, ou seja, o aumento da esperança média de vida, o envelhecimento passou a ser visto como mais uma etapa do desenvolvimento humano. Este fenômeno social tem desencadeado aberturas temáticas para reflexões sobre o processo de envelhecimento, como também para a promoção da saúde e bem-estar dos mesmos. Com o crescimento demográfico da população idosa, torna-se urgente buscarmos estratégias para superarmos este novo desafio, apostando no envelhecimento ativo[2] e com qualidade de vida. A noção de envelhecimento ativo refere-se à possibilidade de envelhecer com saúde e autonomia. O desafio consiste em aproveitar da melhor forma o enorme potencial que cada um conserva até o final da vida. Segundo o Conselho Federal de Psicologia do Brasil (2008, p. 10): “Interagir saberes e desenvolver competências para trabalhar de modo interdisciplinar são requisitos mínimos para que os trabalhos produzidos pelas diversas profissões ofereçam respostas eficazes para uma vida digna para os idosos neste futuro próximo”.
            Para se garantir um envelhecimento ativo é necessário muito mais do que recursos fisiológicos, adquiridos hoje com o avanço da ciência e com a medicina preventiva. Envelhecer bem e com qualidade de vida é também envelhecer com alegria, prazer e felicidade. A qualidade de vida está relacionada não só à adaptação às novas condições de vida, mas também à capacidade do idoso satisfazer suas necessidades subjetivas, seja ao nível dos sentidos, das emoções, dos afetos, da imaginação ou das memórias.
            O que se percebe é que a velhice ainda está associada a aspectos negativos, como a doença, a debilidade física e mental e a incapacidade para o trabalho. Tais estigmas tem contribuído para o isolamento e exclusão dos idosos. Segundo Vicente Faleiros (Conselho Federal de Psicologia, 2008, p. 64): “O envelhecimento e a velhice não se resumem a um estereótipo e nem podem ser reduzidos a um estigma, mesmo num contexto construído socialmente para o lugar do improdutivo”. Embora alguns estudos apontem uma visão mais otimista em relação à velhice, ainda é perceptível o preconceito, que relacionado a alguns estigmas, podem reforçar sentimentos de inadequação e baixa-estima.
            Muitos idosos ainda mantem uma vida autônoma, ou seja, participam ativamente da vida familiar, comunitária e social, dedicando boa parte do seu tempo à família, aos amigos, aos afazeres domésticos, a trabalhos voluntariados, a hobbies e atividades de interesses pessoais. Em contra partida encontramos uma outra parte dessa população condicionada ao isolamento, ou seja, excluidos, vítimas de implicações identitárias, afetivas, emocionais e sociais, o que resulta, muitas vezes, na depressão. Rodrigo Lacerda (2009, p.12) comenta que os “fatores de depressão e/ou insatisfação com a vida podem ser preceptores de uma velhice insatisfatória, pois, nesta fase, existe a preocupação com a velhice cronológica, com os decréscimos fisiológicos, ou mesmo com a aproximação da morte”. É necessário promover medidas para que o idoso se mantenha ativo e possa desfrutar de uma vida com qualidade e com autonomia. Anita Neri[3] aponta o amor, a alegria, o domínio, o controle e a autonomia como sendo algumas das principais necessidades afetivas dos idosos, que relacionadas remetem à questão da subjetividade, tornando-se extremamente relevantes para a adaptação do idoso, para a manutenção das suas relações sociais, para o seu equilíbrio psicofísico, para sua funcionalidade cognitiva e o seu bem-estar subjetivo. “As manifestações do amor ligam-se à alegria, à exploração e ao desfrute; ligam-se ao domínio, à autonomia e à realização, que colaboram para a construção de afetos positivos e contribuem para o senso de autorealização e o senso de autoeficácia (NERI, Conselho Federal de Psicologia, p. 108, 2008)”.
            Enquanto encenador, tive o prazer de agregar ao elenco do espetáculo de rua Auto de Natal Circense, realizado em 2005 e 2006 pela Trupizupi Cia Teatral, em São João del Rei/MG, um grupo de quarenta indivíduos da terceira idade, que além de representarem o “povo”, interviam nas cenas com um côro glamoroso de vozes entoando um extenso repertório de músicas folclóricas e natalinas. Este grupo, integrantes de um projeto do Conservatório Estadual de Música Pe José Maria Xavier, onde fui professor de Artes Cênicas, foi levado a passar, junto dos atores da companhia, por um processo de criação do palhaço e montagem de um espetáculo. A satisfação de estarem inseridos num trabalho artístico e a alegria evocada no jogo lúdico do palhaço foi a locomotiva que levou o grupo a experimentar um verdadeiro estado de liberdade e de criação, levando em conta os aspectos da afetividade e da emoção. Em contato direto com todo o grupo por quatro meses, até a última apresentação da turnê, pude constatar uma mudança positiva. A participação ativa, a dinamicidade do trabalho, o prazer de estarem em cena, os sorrisos, os olhares, o estado de contentamento e de realização resultou num espetáculo contagiante. 
            No exercício do palhaço o indivíduo idoso é levado a construir os pilares que darão sustentação ao seu trabalho, estes pilares são: a liberdade, a espontaneidade, a alegria, o humor, o prazer, a criação e a imaginação, tão preciosos e necessários à saúde e bem-estar físico e mental. Segundo Puccetti, investigador do LUME – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da UNICAMP, vivenciar o ofício do palhaço é a “redescoberta do prazer de fazer as coisas, do prazer de brincar, do prazer de se permitir, do prazer de simplesmente ser. É um estado de afetividade, no sentido de ‘ser afetado’, tocado, vulnerável ao momento e às diferentes situações (Revista do LUME nº 1, 1998, p. 71).”
            O trabalho com a linguagem do palhaço também compreende um estado de interação e comunicação com o ambiente, o outro e o mundo. Segundo Maria Angela Machado: “Um dos modos possíveis de se explicar tal constituição implica a possibilidade de compreender que a característica cômica do clown encontra-se num estado particular de comunicação e interação (MACHADO, 2005, p. 12-13)”. A partir dessa compreensão, nos treinamentos, o sujeito é levado a desenvolver um “novo olhar” e outras formas de comunicar, perceber e agir sobre a sua realidade.
            Um processo de criação do palhaço pode possibilitar ao idoso uma outra forma de ser/estar e de perceber o mundo, como também uma valorização e experienciação de um outro modo de ser/existir. A vivenciar aspectos do ridículo e estúpido do seu próprio ser, aquilo que está oculto, aquilo que não é revelado ou exposto no seu dia a dia, como também a elaboração de uma expressão capaz de “humorizar” o mundo em que vive, e a perceber que errar é mais do que humano e que o erro pode representar algo de bom. Deve possibilitar, também, desenvolver inúmeras capacidades e competências humanas, em todas as suas dimensões, essencialmente aquelas de ordem afetiva, psicológica e emocional, que refletem, por sua vez, no seu comportamento e nas suas relações. Segundo Nery (2008, p. 107) as “competências emocionais traduzem-se em resiliência psicológica, que significa a capacidade de adaptar-se, mediante recursos pessoais em interação com os sociais. Idosos mais resilientes tendem a sentir-se mais felizes, a ter mais gosto pela vida e mais esperança, que funcionam como mecanismos protetores (Conselho Federal de Psicologia)”.
            A proposta do jogo lúdico do palhaço pode significar para os idosos a oportunidade de partilharem as suas experiências, de continuarem a desempenhar um papel ativo e de viverem as suas vidas de maneira mais saudável e preenchida. Além do mais, torna-se necessário chamar a atenção para a importância do contributo dos idosos para a sociedade e incentivar os responsáveis políticos e todas as partes interessadas a tomarem medidas para criar condições necessárias ao envelhecimento ativo e ao reforço da solidariedade entre as gerações. Independentemente da nossa idade, podemos continuar a ser membros ativos e beneficiar de uma melhor qualidade de vida. O desafio consiste em tirar o máximo partido do enorme potencial que há em nós, seja qual for a nossa idade.

REFERÊNCIA:

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Envelhecimento e subjetividade: desafios para uma cultura de compromisso social. Brasília, 2008;
FERRACINI, Renato. A arte de não interpretar como poesia corpórea do ator. Campinas: Ed. da Unicamp, 2003;
KLEBER, Klaas. Corporeidade e Fisicidade: O treinamento do clown enquanto instrumental técnico e artístico na formação do ator. Lisboa: Chiado editora, 1ª ed, 2012;
LACERDA, Rodrigo A. M. V. A qualidade de vida no processo de readaptação à vida na velhice: estudo com um grupo de homens acometidos de AVC. Inter Science Place, Revista Científica Internacional. Ano 2, nº 6, 2009;
MACHADO, Maria Angela de Ambrosis Pinheiro. Uma nova mídia em cena: corpo, comunicação e clown. Dissertação de Doutorado. PUC. São Paulo, 2005;
PUCCETTI, Ricardo. O riso em três tempos. Revista do LUME. Número 01. Campinas: Ed. Unicamp, pp. 67-74, 1998.


[1] Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre gerações 2012. Programa de ação do AEEASG’2012/Portugal. Governo de Portugal, Jan/2012.
[2] Envelhecimento ativo, na definição da Organização Mundial de Saúde, é o processo de otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida à medida que as pessoas ficam mais velhas. Em outras palavras, é manter a autonomia e a independência dos idosos, não só em relação à saúde física, mas nas questões sociais, econômicas, culturais, espirituais e civis. (Portal do Envelhecimento – PUC/SP).

[3] Saúde e envelhecimento: prevenção e promoção. As necessidades afetivas dos idosos. Conselho Federal de Psicologia, 2008.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Maria Zoronga, um clown? Como assim?




                Foram estas as perguntas que fiz a Klaas Kleber quando ele afirmou que Maria Zoronga não era uma personagem, que ela era um clown, o meu clown!
Estava em Lisboa para uma temporada de três meses nos quais faria uma Formação em Sustentabilidade e Biodiversidade pelo Projeto Inquire no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra. Cheguei em 15/01 e a primeira etapa da formação terminaria em 05/02, mas para aproveitar o custo da viagem que corria tudo por minha conta, planejei esticar a estadia e me ajuntar com os artistas que lá conhecera, na primavera passada, em um jantar na casa do primo Kleber.
                Para isso havia trazido na bagagem, a própria Maria Zoronga, a boneca Abba Dara, um pandeiro, um “ovinho” percussivo, um triângulo e um tamborim e com isso pretendia aproveitar a viagem e tocar e cantar e dançar com esses artistas, além de me aperfeiçoar no teatro, é claro... Ah, estava me esquecendo do Palhaço Laranjinha! Não é a toa que me esqueci dele...  Nem saiu da mala, pois Kleber nem quis conhecê-lo. Imaginou logo que seria mais um daqueles palhaços esteriotipados, sem formação, que se apresentavam em festinhas de crianças com piadas e brincadeiras desconexas e descontextualizadas...  E era... Mesmo porque não havia passado de uma apresentação experimental no dia das crianças no projeto das Irmãs Passionistas, na periferia de Barbacena. Era inexperiente e cheio de defeitos embora tivesse agradado tanto aquelas crianças que nunca tinham visto um palhaço, de perto, e ainda mais, a distribuir balas. Acabei concordando com ele.  “Matei” Laranjinha. A função seria mesmo da Maria Zoronga! Como assim?  Quem era a Maria Zoronga, tão poderosa que poderia fazer qualquer coisa que quisesse?
                Fui lhe contando a história dela, que havia surgido na possibilidade de me apresentar na abertura de uma Conferência de Saúde Mental que estava para acontecer, ano passado, no município e que era uma personagem inspirada naquelas figuras loucas, engraçadas e diferentes  que eu vira perambular pelas ruas da cidade. Contei-lhe ainda a origem do nome, de como tinha sido a reação favorável das duas primeiras pessoas que viram o primeiro texto, que a apresentação na tal conferencia tinha furado, mas que ela havia se apresentado duas vezes na escola, no projeto das irmãs. Que às vezes conseguia fazer rir com seus questionamentos que há muito tempo me incomodavam. E que ela estava fazendo ou falando algumas coisas que eu mesma gostava de fazer ou falar. Foi aí que ele me explicou  que ela era o meu clown e comecei  a me interessar  pelo  o assunto    (já tinha ouvido falar em “Clown”, no  Grupo Teatral CENARTE,  onde tive a oportunidade de ingressar no Teatro, aos 47 anos de idade, e onde permaneci de janeiro de 2008 a meados de 2011. Apenas associara “clown” a “palhaço”,  na única esquete do grupo,  em que participei  como tal.
                À princípio  foram conversas  e exercícios  associados à  preparação da performance que apresentaríamos na Exposição de bonecos e Concerto de nosso amigo Junior Natureza. Ele representando o Caixeiro Viajante e eu, Olivia Batista, a passante da história “A árvore de dinheiro”, adaptada e dirigida por Klaas Kleber.  Feita a primeira apresentação hora de avaliação e acertos. A expressão facial estava boa, apesar do lenço na cabeça, relíquia preciosa, uma lembrança de uma madrinha falecida que, estava atrapalhando a magnitude dessa expressão. A versatilidade e a mobilidade corporal na comunicação com o público e a exploração desses movimentos, deveriam melhorar, pois seriam fundamentais para o bom desempenho de um clown que se propunha a aperfeiçoar.  No mais tudo bem! Era o começo da “evolução de Maria Zoronga”
                Sob a orientação de um diretor estudioso e experiente,  seus movimentos cresceram, seu figurino foi se enriquecendo , seus cabelos saltaram e seus olhos, sem os óculos coloridos, terminantemente proibidos por ele,  passaram a transmitir toda a minha (?) e expressividade.
Juntos com a preparação prática para as próximas apresentações vieram uma oficina de “Corpo e Movimento” e a primeira leitura do que viria a ser o livro “O Clown”, de Klaas Kleber. Reflexões, questionamentos e discussões também foi fazendo parte desse processo de evolução e aperfeiçoamento durante essa primeira estadia em Lisboa. E na carona da viagem, uma oficina de confecção de “Mamulengos de Vara” e algumas oportunidades de praticar mais um pouco no pandeiro e no “ovinho” percussivo.
                De volta ao Brasil, paralelamente à etapa de execução do projeto proposto em Coimbra surgiu a oportunidade de eventuais apresentações voluntárias nas atividades do PROEMAM/Programa Meio Ambiente em Movimento,  da Policia Ambiental da 13ª Cia de Barbacena, dos quais, o Instituto Rio Limpo, ao qual pertenço, é parceiro.  Apresentei Maria Zoronga  na escola, onde trabalhava e na 1ª Ação Integrada de Meio Ambiente, onde  Maria e a boneca Letícia recepcionavam os alunos e visitantes.
                Retornando a Portugal para apresentar o meu trabalho em Coimbra, novamente dei continuidade à busca do aperfeiçoamento artístico tendo a oportunidade de participar do lançamento do livro “O Clown” de Klaas Kleber,  em um primeiro momento na Casa do Brasil de Lisboa e a seguir na Semana de Palhaços, em Évora, eventos esses ocorridos em julho de 2012. Também em Évora pude participar de debates e de uma vasta programação cultural nas ruas e praças da cidade, bem como na sede no grupo PIM TEATRO, organizador do evento.
                Nessas idas e vindas de Portugal me apresentei em  mais  outras três escolas já me preparando para apresentar “Maria Zoronga e a Biodiversidade” no Fórum Inquire que se realizaria em Coimbra em novembro.  Ciente de que não era uma personagem e sim um clown, verdadeiro, que poderia utilizar todas as minhas experiências de vida e de trabalho, de todas as angústias pessoais e sociais que vivenciei e ainda vivencio, de todas as observações  do cotidiano de adultos e crianças,  de todo movimentos observados ao redor,  para dar vida a objetos,  contar histórias, improvisar cenas e cenários, criticar e ridicularizar a política e as ações  indesejadas dos  políticos,  debochar de conceitos e preconceitos, morais, religiosos, utilizando  toda a minha criatividade e  expressividade para brincar, rir e fazer chorar com a minha própria história. Conhecimentos estes que pude aperfeiçoar e aplicar durante a participação na Oficina de Clown, realizada pelo Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro.  A oficina, ministrada por Klaas Kleber, foi concluída com êxito, pela espetacular apresentação final dos trabalhos, onde cada dupla de aprendizes do ofício demonstraram na prática a importância da formação, da fundamentação teórica, dos exercícios físicos, do treinamento corporal, facial, dentre outros, fundamentais para o aperfeiçoamento profissional e crescimento pessoal de cada um dos presentes.
                E para fechar um ano riquíssimo em experiências artísticas tive a oportunidade de participar do “Auto de Natal Circense” com klaas Kleber e Anna Carminatti, pelas ruas e praças de Aveiro. Atividades prá “clown nenhum botar defeito”, diriam os mais velhos...

Olivia Batista
Professora Aposentada, Atriz (?) e Educadora Ambiental.
Barbacena/Minas Gerais/Brasil
Janeiro/2013