Foram estas as perguntas que fiz
a Klaas Kleber quando ele afirmou que Maria Zoronga não era uma personagem, que
ela era um clown, o meu clown!
Estava em
Lisboa para uma temporada de três meses nos quais faria uma Formação em
Sustentabilidade e Biodiversidade pelo Projeto Inquire no Jardim Botânico da
Universidade de Coimbra. Cheguei em 15/01 e a primeira etapa da formação
terminaria em 05/02, mas para aproveitar o custo da viagem que corria tudo por
minha conta, planejei esticar a estadia e me ajuntar com os artistas que lá conhecera,
na primavera passada, em um jantar na casa do primo Kleber.
Para isso havia trazido na
bagagem, a própria Maria Zoronga, a boneca Abba Dara, um pandeiro, um “ovinho”
percussivo, um triângulo e um tamborim e com isso pretendia aproveitar a viagem
e tocar e cantar e dançar com esses artistas, além de me aperfeiçoar no teatro,
é claro... Ah, estava me esquecendo do Palhaço Laranjinha! Não é a toa que me
esqueci dele... Nem saiu da mala, pois Kleber
nem quis conhecê-lo. Imaginou logo que seria mais um daqueles palhaços esteriotipados,
sem formação, que se apresentavam em festinhas de crianças com piadas e
brincadeiras desconexas e descontextualizadas... E era... Mesmo porque não havia passado de
uma apresentação experimental no dia das crianças no projeto das Irmãs
Passionistas, na periferia de Barbacena. Era inexperiente e cheio de defeitos
embora tivesse agradado tanto aquelas crianças que nunca tinham visto um
palhaço, de perto, e ainda mais, a distribuir balas. Acabei concordando com
ele. “Matei” Laranjinha. A função seria mesmo
da Maria Zoronga! Como assim? Quem era a
Maria Zoronga, tão poderosa que poderia fazer qualquer coisa que quisesse?
Fui lhe contando a história
dela, que havia surgido na possibilidade de me apresentar na abertura de uma
Conferência de Saúde Mental que estava para acontecer, ano passado, no
município e que era uma personagem inspirada naquelas figuras loucas,
engraçadas e diferentes que eu vira
perambular pelas ruas da cidade. Contei-lhe ainda a origem do nome, de como
tinha sido a reação favorável das duas primeiras pessoas que viram o primeiro
texto, que a apresentação na tal conferencia tinha furado, mas que ela havia se
apresentado duas vezes na escola, no projeto das irmãs. Que às vezes conseguia
fazer rir com seus questionamentos que há muito tempo me incomodavam. E que ela
estava fazendo ou falando algumas coisas que eu mesma gostava de fazer ou
falar. Foi aí que ele me explicou que
ela era o meu clown e comecei a me
interessar pelo o assunto (já
tinha ouvido falar em “Clown”, no Grupo
Teatral CENARTE, onde tive a
oportunidade de ingressar no Teatro, aos 47 anos de idade, e onde permaneci de
janeiro de 2008 a meados de 2011. Apenas associara “clown” a “palhaço”, na única esquete do grupo, em que participei como tal.
À princípio foram conversas e exercícios
associados à preparação da
performance que apresentaríamos na Exposição de bonecos e Concerto de nosso
amigo Junior Natureza. Ele representando o Caixeiro Viajante e eu, Olivia
Batista, a passante da história “A árvore de dinheiro”, adaptada e dirigida por
Klaas Kleber. Feita a primeira
apresentação hora de avaliação e acertos. A expressão facial estava boa, apesar
do lenço na cabeça, relíquia preciosa, uma lembrança de uma madrinha falecida
que, estava atrapalhando a magnitude dessa expressão. A versatilidade e a
mobilidade corporal na comunicação com o público e a exploração desses
movimentos, deveriam melhorar, pois seriam fundamentais para o bom desempenho
de um clown que se propunha a aperfeiçoar.
No mais tudo bem! Era o começo da “evolução de Maria Zoronga”
Sob a orientação de um diretor
estudioso e experiente, seus movimentos
cresceram, seu figurino foi se enriquecendo , seus cabelos saltaram e seus
olhos, sem os óculos coloridos, terminantemente proibidos por ele, passaram a transmitir toda a minha (?) e expressividade.
Juntos com a
preparação prática para as próximas apresentações vieram uma oficina de “Corpo
e Movimento” e a primeira leitura do que viria a ser o livro “O Clown”, de
Klaas Kleber. Reflexões, questionamentos e discussões também foi fazendo parte
desse processo de evolução e aperfeiçoamento durante essa primeira estadia em
Lisboa. E na carona da viagem, uma oficina de confecção de “Mamulengos de Vara”
e algumas oportunidades de praticar mais um pouco no pandeiro e no “ovinho”
percussivo.
De
volta ao Brasil, paralelamente à etapa de execução do projeto proposto em
Coimbra surgiu a oportunidade de eventuais apresentações voluntárias nas
atividades do PROEMAM/Programa Meio Ambiente em Movimento, da Policia Ambiental da 13ª Cia de Barbacena,
dos quais, o Instituto Rio Limpo, ao qual pertenço, é parceiro. Apresentei Maria Zoronga na escola, onde trabalhava e na 1ª Ação
Integrada de Meio Ambiente, onde Maria e
a boneca Letícia recepcionavam os alunos e visitantes.
Retornando a Portugal para
apresentar o meu trabalho em Coimbra, novamente dei continuidade à busca do
aperfeiçoamento artístico tendo a oportunidade de participar do lançamento do
livro “O Clown” de Klaas Kleber, em um
primeiro momento na Casa do Brasil de Lisboa e a seguir na Semana de Palhaços,
em Évora, eventos esses ocorridos em julho de 2012. Também em Évora pude
participar de debates e de uma vasta programação cultural nas ruas e praças da
cidade, bem como na sede no grupo PIM TEATRO, organizador do evento.
Nessas idas e vindas de Portugal
me apresentei em mais outras três escolas já me preparando para
apresentar “Maria Zoronga e a Biodiversidade” no Fórum Inquire que se realizaria
em Coimbra em novembro. Ciente de que
não era uma personagem e sim um clown, verdadeiro, que poderia utilizar todas
as minhas experiências de vida e de trabalho, de todas as angústias pessoais e
sociais que vivenciei e ainda vivencio, de todas as observações do cotidiano de adultos e crianças, de todo movimentos observados ao redor, para dar vida a objetos, contar histórias, improvisar cenas e cenários,
criticar e ridicularizar a política e as ações
indesejadas dos políticos, debochar de conceitos e preconceitos, morais,
religiosos, utilizando toda a minha criatividade
e expressividade para brincar, rir e
fazer chorar com a minha própria história. Conhecimentos estes que pude
aperfeiçoar e aplicar durante a participação na Oficina de Clown, realizada
pelo Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro. A oficina, ministrada por Klaas Kleber, foi concluída
com êxito, pela espetacular apresentação final dos trabalhos, onde cada dupla
de aprendizes do ofício demonstraram na prática a importância da formação, da
fundamentação teórica, dos exercícios físicos, do treinamento corporal, facial,
dentre outros, fundamentais para o aperfeiçoamento profissional e crescimento
pessoal de cada um dos presentes.
E para fechar um ano riquíssimo
em experiências artísticas tive a oportunidade de participar do “Auto de Natal
Circense” com klaas Kleber e Anna Carminatti, pelas ruas e praças de Aveiro. Atividades
prá “clown nenhum botar defeito”, diriam os mais velhos...
Olivia
Batista
Professora
Aposentada, Atriz (?) e Educadora Ambiental.
Barbacena/Minas
Gerais/Brasil
Janeiro/2013
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