sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Maria Zoronga, um clown? Como assim?




                Foram estas as perguntas que fiz a Klaas Kleber quando ele afirmou que Maria Zoronga não era uma personagem, que ela era um clown, o meu clown!
Estava em Lisboa para uma temporada de três meses nos quais faria uma Formação em Sustentabilidade e Biodiversidade pelo Projeto Inquire no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra. Cheguei em 15/01 e a primeira etapa da formação terminaria em 05/02, mas para aproveitar o custo da viagem que corria tudo por minha conta, planejei esticar a estadia e me ajuntar com os artistas que lá conhecera, na primavera passada, em um jantar na casa do primo Kleber.
                Para isso havia trazido na bagagem, a própria Maria Zoronga, a boneca Abba Dara, um pandeiro, um “ovinho” percussivo, um triângulo e um tamborim e com isso pretendia aproveitar a viagem e tocar e cantar e dançar com esses artistas, além de me aperfeiçoar no teatro, é claro... Ah, estava me esquecendo do Palhaço Laranjinha! Não é a toa que me esqueci dele...  Nem saiu da mala, pois Kleber nem quis conhecê-lo. Imaginou logo que seria mais um daqueles palhaços esteriotipados, sem formação, que se apresentavam em festinhas de crianças com piadas e brincadeiras desconexas e descontextualizadas...  E era... Mesmo porque não havia passado de uma apresentação experimental no dia das crianças no projeto das Irmãs Passionistas, na periferia de Barbacena. Era inexperiente e cheio de defeitos embora tivesse agradado tanto aquelas crianças que nunca tinham visto um palhaço, de perto, e ainda mais, a distribuir balas. Acabei concordando com ele.  “Matei” Laranjinha. A função seria mesmo da Maria Zoronga! Como assim?  Quem era a Maria Zoronga, tão poderosa que poderia fazer qualquer coisa que quisesse?
                Fui lhe contando a história dela, que havia surgido na possibilidade de me apresentar na abertura de uma Conferência de Saúde Mental que estava para acontecer, ano passado, no município e que era uma personagem inspirada naquelas figuras loucas, engraçadas e diferentes  que eu vira perambular pelas ruas da cidade. Contei-lhe ainda a origem do nome, de como tinha sido a reação favorável das duas primeiras pessoas que viram o primeiro texto, que a apresentação na tal conferencia tinha furado, mas que ela havia se apresentado duas vezes na escola, no projeto das irmãs. Que às vezes conseguia fazer rir com seus questionamentos que há muito tempo me incomodavam. E que ela estava fazendo ou falando algumas coisas que eu mesma gostava de fazer ou falar. Foi aí que ele me explicou  que ela era o meu clown e comecei  a me interessar  pelo  o assunto    (já tinha ouvido falar em “Clown”, no  Grupo Teatral CENARTE,  onde tive a oportunidade de ingressar no Teatro, aos 47 anos de idade, e onde permaneci de janeiro de 2008 a meados de 2011. Apenas associara “clown” a “palhaço”,  na única esquete do grupo,  em que participei  como tal.
                À princípio  foram conversas  e exercícios  associados à  preparação da performance que apresentaríamos na Exposição de bonecos e Concerto de nosso amigo Junior Natureza. Ele representando o Caixeiro Viajante e eu, Olivia Batista, a passante da história “A árvore de dinheiro”, adaptada e dirigida por Klaas Kleber.  Feita a primeira apresentação hora de avaliação e acertos. A expressão facial estava boa, apesar do lenço na cabeça, relíquia preciosa, uma lembrança de uma madrinha falecida que, estava atrapalhando a magnitude dessa expressão. A versatilidade e a mobilidade corporal na comunicação com o público e a exploração desses movimentos, deveriam melhorar, pois seriam fundamentais para o bom desempenho de um clown que se propunha a aperfeiçoar.  No mais tudo bem! Era o começo da “evolução de Maria Zoronga”
                Sob a orientação de um diretor estudioso e experiente,  seus movimentos cresceram, seu figurino foi se enriquecendo , seus cabelos saltaram e seus olhos, sem os óculos coloridos, terminantemente proibidos por ele,  passaram a transmitir toda a minha (?) e expressividade.
Juntos com a preparação prática para as próximas apresentações vieram uma oficina de “Corpo e Movimento” e a primeira leitura do que viria a ser o livro “O Clown”, de Klaas Kleber. Reflexões, questionamentos e discussões também foi fazendo parte desse processo de evolução e aperfeiçoamento durante essa primeira estadia em Lisboa. E na carona da viagem, uma oficina de confecção de “Mamulengos de Vara” e algumas oportunidades de praticar mais um pouco no pandeiro e no “ovinho” percussivo.
                De volta ao Brasil, paralelamente à etapa de execução do projeto proposto em Coimbra surgiu a oportunidade de eventuais apresentações voluntárias nas atividades do PROEMAM/Programa Meio Ambiente em Movimento,  da Policia Ambiental da 13ª Cia de Barbacena, dos quais, o Instituto Rio Limpo, ao qual pertenço, é parceiro.  Apresentei Maria Zoronga  na escola, onde trabalhava e na 1ª Ação Integrada de Meio Ambiente, onde  Maria e a boneca Letícia recepcionavam os alunos e visitantes.
                Retornando a Portugal para apresentar o meu trabalho em Coimbra, novamente dei continuidade à busca do aperfeiçoamento artístico tendo a oportunidade de participar do lançamento do livro “O Clown” de Klaas Kleber,  em um primeiro momento na Casa do Brasil de Lisboa e a seguir na Semana de Palhaços, em Évora, eventos esses ocorridos em julho de 2012. Também em Évora pude participar de debates e de uma vasta programação cultural nas ruas e praças da cidade, bem como na sede no grupo PIM TEATRO, organizador do evento.
                Nessas idas e vindas de Portugal me apresentei em  mais  outras três escolas já me preparando para apresentar “Maria Zoronga e a Biodiversidade” no Fórum Inquire que se realizaria em Coimbra em novembro.  Ciente de que não era uma personagem e sim um clown, verdadeiro, que poderia utilizar todas as minhas experiências de vida e de trabalho, de todas as angústias pessoais e sociais que vivenciei e ainda vivencio, de todas as observações  do cotidiano de adultos e crianças,  de todo movimentos observados ao redor,  para dar vida a objetos,  contar histórias, improvisar cenas e cenários, criticar e ridicularizar a política e as ações  indesejadas dos  políticos,  debochar de conceitos e preconceitos, morais, religiosos, utilizando  toda a minha criatividade e  expressividade para brincar, rir e fazer chorar com a minha própria história. Conhecimentos estes que pude aperfeiçoar e aplicar durante a participação na Oficina de Clown, realizada pelo Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro.  A oficina, ministrada por Klaas Kleber, foi concluída com êxito, pela espetacular apresentação final dos trabalhos, onde cada dupla de aprendizes do ofício demonstraram na prática a importância da formação, da fundamentação teórica, dos exercícios físicos, do treinamento corporal, facial, dentre outros, fundamentais para o aperfeiçoamento profissional e crescimento pessoal de cada um dos presentes.
                E para fechar um ano riquíssimo em experiências artísticas tive a oportunidade de participar do “Auto de Natal Circense” com klaas Kleber e Anna Carminatti, pelas ruas e praças de Aveiro. Atividades prá “clown nenhum botar defeito”, diriam os mais velhos...

Olivia Batista
Professora Aposentada, Atriz (?) e Educadora Ambiental.
Barbacena/Minas Gerais/Brasil
Janeiro/2013






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