quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
INTERVENÇÃO ARTÍSTICO/SOCIAL: ENVELHECER COM HUMOR
Viver mais tempo implica
envelhecer. Maior longevidade não é um
fatalismo ou uma ameaça. É uma
vitória da humanidade e uma
oportunidade de potenciar o
«património imaterial» que
significa o contributo das
pessoas mais velhas.[1]
Por Klaas Kleber
Na contemporaneidade, com
o alcance da longevidade da população, ou seja, o aumento da esperança média de
vida, o envelhecimento passou a ser visto como mais uma etapa do
desenvolvimento humano. Este
fenômeno social tem desencadeado aberturas temáticas para reflexões sobre o processo
de envelhecimento, como também para a promoção da saúde e bem-estar dos mesmos.
Com o crescimento demográfico da população idosa, torna-se urgente buscarmos
estratégias para superarmos este novo desafio, apostando no envelhecimento ativo[2]
e com qualidade de vida. A noção de envelhecimento ativo refere-se à
possibilidade de envelhecer com saúde e autonomia. O desafio consiste em
aproveitar da melhor forma o enorme potencial que cada um conserva até o final
da vida. Segundo
o Conselho Federal de Psicologia do Brasil (2008, p. 10): “Interagir saberes e desenvolver competências para
trabalhar de modo interdisciplinar são requisitos mínimos para que os trabalhos
produzidos pelas diversas profissões ofereçam respostas eficazes para uma vida
digna para os idosos neste futuro próximo”.
Para se garantir um envelhecimento ativo é necessário muito
mais do que recursos fisiológicos, adquiridos hoje com o avanço da ciência e
com a medicina preventiva. Envelhecer bem e com qualidade de vida é também
envelhecer com alegria, prazer e
felicidade. A qualidade de vida está
relacionada não só à adaptação às novas condições de vida, mas também à
capacidade do idoso satisfazer suas necessidades subjetivas, seja ao nível dos
sentidos, das emoções, dos afetos, da imaginação ou das memórias.
O que se percebe é que a velhice
ainda está associada a aspectos negativos, como a doença, a debilidade física e
mental e a incapacidade para o trabalho. Tais estigmas tem contribuído para o
isolamento e exclusão dos idosos. Segundo Vicente
Faleiros (Conselho Federal de Psicologia, 2008, p. 64): “O envelhecimento e a
velhice não se resumem a um estereótipo e nem podem ser reduzidos a um estigma,
mesmo num contexto construído socialmente para o lugar do improdutivo”. Embora
alguns estudos apontem uma visão mais otimista em relação à velhice, ainda é
perceptível o preconceito, que relacionado a alguns estigmas, podem reforçar
sentimentos de inadequação e baixa-estima.
Muitos idosos ainda mantem
uma vida autônoma, ou seja, participam ativamente da vida familiar, comunitária
e social, dedicando boa parte do
seu tempo à família, aos amigos, aos afazeres domésticos, a trabalhos
voluntariados, a hobbies e atividades
de interesses pessoais. Em contra partida encontramos uma outra parte dessa população condicionada
ao isolamento, ou seja, excluidos, vítimas de
implicações identitárias, afetivas, emocionais e sociais, o que resulta, muitas
vezes, na depressão. Rodrigo Lacerda (2009, p.12) comenta
que os “fatores de depressão e/ou
insatisfação com a vida podem ser preceptores de uma velhice insatisfatória,
pois, nesta fase, existe a preocupação com a velhice cronológica, com os
decréscimos fisiológicos, ou mesmo com a aproximação da morte”. É
necessário promover medidas para que o idoso se mantenha ativo e
possa desfrutar de uma vida com qualidade e com autonomia. Anita
Neri[3]
aponta o amor, a alegria, o domínio, o controle e a autonomia como sendo algumas das principais necessidades afetivas
dos idosos, que relacionadas remetem à questão da subjetividade, tornando-se
extremamente relevantes para a adaptação do idoso, para a manutenção das suas
relações sociais, para o seu equilíbrio psicofísico, para sua funcionalidade
cognitiva e o seu bem-estar subjetivo. “As
manifestações do amor ligam-se à alegria, à exploração e ao desfrute; ligam-se
ao domínio, à autonomia e à realização, que colaboram para a construção de
afetos positivos e contribuem para o senso de autorealização e o senso de
autoeficácia (NERI, Conselho Federal de Psicologia, p. 108, 2008)”.
Enquanto
encenador, tive o prazer de agregar ao elenco do espetáculo de rua Auto de Natal Circense, realizado em
2005 e 2006 pela Trupizupi Cia Teatral,
em São João del Rei/MG, um grupo de quarenta indivíduos da terceira idade, que
além de representarem o “povo”, interviam nas cenas com um côro glamoroso de
vozes entoando um extenso repertório de músicas folclóricas e natalinas. Este
grupo, integrantes de um projeto do Conservatório Estadual de Música Pe José
Maria Xavier, onde fui professor de Artes Cênicas, foi levado a passar, junto
dos atores da companhia, por um processo de criação do palhaço e montagem de um
espetáculo. A satisfação de estarem
inseridos num trabalho artístico e a alegria evocada no jogo lúdico do palhaço
foi a locomotiva que levou o grupo a experimentar um verdadeiro estado de
liberdade e de criação, levando em conta os aspectos da afetividade e da emoção.
Em contato direto com todo o grupo por quatro meses, até a última apresentação
da turnê, pude constatar uma mudança positiva. A participação ativa, a dinamicidade do trabalho, o prazer de estarem
em cena, os sorrisos, os olhares, o estado de contentamento e de realização
resultou num espetáculo contagiante.
No exercício do palhaço o
indivíduo idoso é levado a construir os pilares que darão sustentação ao seu
trabalho, estes pilares são: a liberdade,
a espontaneidade, a alegria, o humor, o prazer, a criação e a imaginação,
tão preciosos e necessários à saúde e bem-estar físico e mental. Segundo
Puccetti, investigador do LUME – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais
da UNICAMP, vivenciar o ofício do palhaço é a “redescoberta do prazer de fazer
as coisas, do prazer de brincar, do prazer de se permitir, do prazer de
simplesmente ser. É um estado de afetividade, no sentido de ‘ser afetado’,
tocado, vulnerável ao momento e às diferentes situações (Revista do LUME nº 1,
1998, p. 71).”
O trabalho com a linguagem
do palhaço também compreende um estado de interação e comunicação com o
ambiente, o outro e o mundo. Segundo Maria Angela Machado: “Um dos modos
possíveis de se explicar tal constituição implica a possibilidade de
compreender que a característica cômica do clown
encontra-se num estado particular de comunicação e interação (MACHADO, 2005, p.
12-13)”. A partir dessa compreensão, nos treinamentos, o sujeito é levado a desenvolver um “novo olhar”
e outras formas de comunicar, perceber e agir sobre a sua realidade.
Um processo de criação do
palhaço pode possibilitar ao idoso uma outra forma de ser/estar e de perceber o mundo, como também uma valorização e experienciação de um outro modo de ser/existir. A vivenciar aspectos do
ridículo e estúpido do seu próprio ser, aquilo que está oculto, aquilo que não
é revelado ou exposto no seu dia a dia, como também a elaboração de uma
expressão capaz de “humorizar” o mundo em que vive, e a perceber que errar é
mais do que humano e que o erro pode representar
algo de bom. Deve possibilitar, também, desenvolver inúmeras
capacidades e competências humanas, em todas as suas dimensões, essencialmente
aquelas de ordem afetiva, psicológica e emocional, que refletem, por sua vez,
no seu comportamento e nas suas relações. Segundo
Nery (2008, p. 107) as “competências
emocionais traduzem-se em resiliência psicológica, que significa a capacidade
de adaptar-se, mediante recursos pessoais em interação com os sociais. Idosos
mais resilientes tendem a sentir-se mais felizes, a ter mais gosto pela vida e
mais esperança, que funcionam como mecanismos protetores (Conselho Federal de
Psicologia)”.
A proposta do jogo lúdico do
palhaço pode significar para os idosos a oportunidade de partilharem as suas
experiências, de continuarem a desempenhar um papel ativo e de viverem as suas
vidas de maneira mais saudável e preenchida. Além do mais,
torna-se necessário chamar a atenção para a importância do contributo dos
idosos para a sociedade e incentivar os responsáveis políticos e todas as
partes interessadas a tomarem medidas para criar condições necessárias ao
envelhecimento ativo e ao reforço da solidariedade entre as gerações. Independentemente da
nossa idade, podemos continuar a ser membros ativos e beneficiar de uma melhor
qualidade de vida. O desafio consiste em tirar o máximo partido do enorme
potencial que há em nós, seja qual for a nossa idade.
REFERÊNCIA:
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Envelhecimento
e subjetividade: desafios para uma cultura de compromisso social. Brasília,
2008;
FERRACINI,
Renato. A arte de não interpretar como
poesia corpórea do ator. Campinas: Ed. da Unicamp, 2003;
KLEBER, Klaas. Corporeidade
e Fisicidade: O treinamento do clown enquanto instrumental técnico e artístico
na formação do ator. Lisboa: Chiado editora, 1ª ed, 2012;
LACERDA, Rodrigo A. M. V. A qualidade de vida no
processo de readaptação à vida na velhice: estudo com um grupo de homens
acometidos de AVC. Inter Science Place,
Revista Científica Internacional. Ano 2, nº 6, 2009;
MACHADO, Maria Angela de Ambrosis Pinheiro. Uma nova mídia em cena: corpo, comunicação e clown. Dissertação de
Doutorado. PUC. São Paulo, 2005;
PUCCETTI, Ricardo. O riso em três tempos. Revista do LUME. Número 01. Campinas: Ed. Unicamp, pp. 67-74, 1998.
[1] Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre gerações 2012.
Programa de ação do AEEASG’2012/Portugal. Governo de Portugal, Jan/2012.
[2] Envelhecimento ativo, na definição da
Organização Mundial de Saúde, é o processo de otimização das oportunidades de
saúde, participação e segurança, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida
à medida que as pessoas ficam mais velhas. Em outras palavras, é manter a
autonomia e a independência dos idosos, não só em relação à saúde física, mas
nas questões sociais, econômicas, culturais, espirituais e civis. (Portal do
Envelhecimento – PUC/SP).
[3] Saúde e envelhecimento: prevenção e promoção. As necessidades afetivas dos
idosos. Conselho Federal de
Psicologia, 2008.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Maria Zoronga, um clown? Como assim?
Foram estas as perguntas que fiz
a Klaas Kleber quando ele afirmou que Maria Zoronga não era uma personagem, que
ela era um clown, o meu clown!
Estava em
Lisboa para uma temporada de três meses nos quais faria uma Formação em
Sustentabilidade e Biodiversidade pelo Projeto Inquire no Jardim Botânico da
Universidade de Coimbra. Cheguei em 15/01 e a primeira etapa da formação
terminaria em 05/02, mas para aproveitar o custo da viagem que corria tudo por
minha conta, planejei esticar a estadia e me ajuntar com os artistas que lá conhecera,
na primavera passada, em um jantar na casa do primo Kleber.
Para isso havia trazido na
bagagem, a própria Maria Zoronga, a boneca Abba Dara, um pandeiro, um “ovinho”
percussivo, um triângulo e um tamborim e com isso pretendia aproveitar a viagem
e tocar e cantar e dançar com esses artistas, além de me aperfeiçoar no teatro,
é claro... Ah, estava me esquecendo do Palhaço Laranjinha! Não é a toa que me
esqueci dele... Nem saiu da mala, pois Kleber
nem quis conhecê-lo. Imaginou logo que seria mais um daqueles palhaços esteriotipados,
sem formação, que se apresentavam em festinhas de crianças com piadas e
brincadeiras desconexas e descontextualizadas... E era... Mesmo porque não havia passado de
uma apresentação experimental no dia das crianças no projeto das Irmãs
Passionistas, na periferia de Barbacena. Era inexperiente e cheio de defeitos
embora tivesse agradado tanto aquelas crianças que nunca tinham visto um
palhaço, de perto, e ainda mais, a distribuir balas. Acabei concordando com
ele. “Matei” Laranjinha. A função seria mesmo
da Maria Zoronga! Como assim? Quem era a
Maria Zoronga, tão poderosa que poderia fazer qualquer coisa que quisesse?
Fui lhe contando a história
dela, que havia surgido na possibilidade de me apresentar na abertura de uma
Conferência de Saúde Mental que estava para acontecer, ano passado, no
município e que era uma personagem inspirada naquelas figuras loucas,
engraçadas e diferentes que eu vira
perambular pelas ruas da cidade. Contei-lhe ainda a origem do nome, de como
tinha sido a reação favorável das duas primeiras pessoas que viram o primeiro
texto, que a apresentação na tal conferencia tinha furado, mas que ela havia se
apresentado duas vezes na escola, no projeto das irmãs. Que às vezes conseguia
fazer rir com seus questionamentos que há muito tempo me incomodavam. E que ela
estava fazendo ou falando algumas coisas que eu mesma gostava de fazer ou
falar. Foi aí que ele me explicou que
ela era o meu clown e comecei a me
interessar pelo o assunto (já
tinha ouvido falar em “Clown”, no Grupo
Teatral CENARTE, onde tive a
oportunidade de ingressar no Teatro, aos 47 anos de idade, e onde permaneci de
janeiro de 2008 a meados de 2011. Apenas associara “clown” a “palhaço”, na única esquete do grupo, em que participei como tal.
À princípio foram conversas e exercícios
associados à preparação da
performance que apresentaríamos na Exposição de bonecos e Concerto de nosso
amigo Junior Natureza. Ele representando o Caixeiro Viajante e eu, Olivia
Batista, a passante da história “A árvore de dinheiro”, adaptada e dirigida por
Klaas Kleber. Feita a primeira
apresentação hora de avaliação e acertos. A expressão facial estava boa, apesar
do lenço na cabeça, relíquia preciosa, uma lembrança de uma madrinha falecida
que, estava atrapalhando a magnitude dessa expressão. A versatilidade e a
mobilidade corporal na comunicação com o público e a exploração desses
movimentos, deveriam melhorar, pois seriam fundamentais para o bom desempenho
de um clown que se propunha a aperfeiçoar.
No mais tudo bem! Era o começo da “evolução de Maria Zoronga”
Sob a orientação de um diretor
estudioso e experiente, seus movimentos
cresceram, seu figurino foi se enriquecendo , seus cabelos saltaram e seus
olhos, sem os óculos coloridos, terminantemente proibidos por ele, passaram a transmitir toda a minha (?) e expressividade.
Juntos com a
preparação prática para as próximas apresentações vieram uma oficina de “Corpo
e Movimento” e a primeira leitura do que viria a ser o livro “O Clown”, de
Klaas Kleber. Reflexões, questionamentos e discussões também foi fazendo parte
desse processo de evolução e aperfeiçoamento durante essa primeira estadia em
Lisboa. E na carona da viagem, uma oficina de confecção de “Mamulengos de Vara”
e algumas oportunidades de praticar mais um pouco no pandeiro e no “ovinho”
percussivo.
De
volta ao Brasil, paralelamente à etapa de execução do projeto proposto em
Coimbra surgiu a oportunidade de eventuais apresentações voluntárias nas
atividades do PROEMAM/Programa Meio Ambiente em Movimento, da Policia Ambiental da 13ª Cia de Barbacena,
dos quais, o Instituto Rio Limpo, ao qual pertenço, é parceiro. Apresentei Maria Zoronga na escola, onde trabalhava e na 1ª Ação
Integrada de Meio Ambiente, onde Maria e
a boneca Letícia recepcionavam os alunos e visitantes.
Retornando a Portugal para
apresentar o meu trabalho em Coimbra, novamente dei continuidade à busca do
aperfeiçoamento artístico tendo a oportunidade de participar do lançamento do
livro “O Clown” de Klaas Kleber, em um
primeiro momento na Casa do Brasil de Lisboa e a seguir na Semana de Palhaços,
em Évora, eventos esses ocorridos em julho de 2012. Também em Évora pude
participar de debates e de uma vasta programação cultural nas ruas e praças da
cidade, bem como na sede no grupo PIM TEATRO, organizador do evento.
Nessas idas e vindas de Portugal
me apresentei em mais outras três escolas já me preparando para
apresentar “Maria Zoronga e a Biodiversidade” no Fórum Inquire que se realizaria
em Coimbra em novembro. Ciente de que
não era uma personagem e sim um clown, verdadeiro, que poderia utilizar todas
as minhas experiências de vida e de trabalho, de todas as angústias pessoais e
sociais que vivenciei e ainda vivencio, de todas as observações do cotidiano de adultos e crianças, de todo movimentos observados ao redor, para dar vida a objetos, contar histórias, improvisar cenas e cenários,
criticar e ridicularizar a política e as ações
indesejadas dos políticos, debochar de conceitos e preconceitos, morais,
religiosos, utilizando toda a minha criatividade
e expressividade para brincar, rir e
fazer chorar com a minha própria história. Conhecimentos estes que pude
aperfeiçoar e aplicar durante a participação na Oficina de Clown, realizada
pelo Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro. A oficina, ministrada por Klaas Kleber, foi concluída
com êxito, pela espetacular apresentação final dos trabalhos, onde cada dupla
de aprendizes do ofício demonstraram na prática a importância da formação, da
fundamentação teórica, dos exercícios físicos, do treinamento corporal, facial,
dentre outros, fundamentais para o aperfeiçoamento profissional e crescimento
pessoal de cada um dos presentes.
E para fechar um ano riquíssimo
em experiências artísticas tive a oportunidade de participar do “Auto de Natal
Circense” com klaas Kleber e Anna Carminatti, pelas ruas e praças de Aveiro. Atividades
prá “clown nenhum botar defeito”, diriam os mais velhos...
Olivia
Batista
Professora
Aposentada, Atriz (?) e Educadora Ambiental.
Barbacena/Minas
Gerais/Brasil
Janeiro/2013
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